Rosa e Momo: uma lição de Humanidade






Se você está procurando um filme bom para assistir, indicamos Rosa e Momo. A história por trás desse filme nos convoca para uma reflexão sobre a Humanidade de hoje, com nossas crises migratórias, nossos conflitos étnico-religiosos, nossas intolerâncias e preconceitos. Levando-nos a entender como é possível transcender a isso tudo a partir da consciência de que somos uma grande Família Humana.



Rosa é uma idosa, judia, com mais de setenta anos, sobrevivente do holocausto. Inclusive carrega no braço um número tatuado que era o código de identificação que se usava nos campos de concentração. Em outro momento de sua vida, foi uma profissional do sexo, e hoje ganha a vida cuidando dos filhos de suas colegas de profissão. Momo, ou Muhammad, é um garoto de doze anos, órfão, senegalês, cuja mãe foi brutalmente assassinada e carrega um trauma que se reflete em pesadelos e sonambulismos. Vive de pequenos furtos em uma região pobre da cidade de Nápoles, no sul da Itália e é ajudado por um médico, Dr. Coen, que assim como Rosa, também é judeu.



O encontro entre Momo e Rosa se dá da seguinte forma: Rosa está em uma feira pública comprando alimentos, quando é abruptamente assaltada por um garoto que lhe arranca alguns castiçais que trazia em sua sacola. Normalmente um castiçal é visto como um suporte de velas, tipo um candelabro, mas para os judeus é muito mais que isso, é o símbolo de sua identidade como povo. Quando o Dr. Coen percebeu o que Momo trouxera para casa, imediatamente identificou quem teria sido a vítima e o obrigou a devolver o objeto à Rosa e a se desculpar.



Dr. Coen vê algo além e pede a Rosa para cuidar de Momo, que se recusa energicamente. Mas a insistência do médico e a proposta irrecusável de lhe pagar setecentos euros mensais, lhe faz mudar de ideia. Assim, em uma convivência inicialmente quase impossível, esses dois personagens tão díspares, tão antagônicos, de idades, etnias, religiões e índoles tão diferentes, são obrigados, por força das circunstâncias, a viverem sob o mesmo teto.


Rosa é interpretada por uma lenda do cinema, a atriz Sophia Loren. Ela já foi considerada uma das melhores atrizes do mundo, premiadíssima, carrega em seu currículo desde o Oscar de melhor atriz de 1962, a grammy, globos de ouro e outros prêmios. Eleita como uma das mulheres mais lindas do mundo, Loren, nascida na Itália, quando adolescente, durante a Segunda Guerra Mundial, teve sua cidade bombardeada, chegando a ser alcançada por estilhaços de bombas que lhe feriram o queixo. Após constituir família na década de setenta, afastou-se do cinema para cuidar dos filhos. Hoje, aos 86 anos, ela surpreendeu o mundo aparecendo na pele dessa personagem fortíssima. Sua atuação é muito forte e faz com que fiquemos com a imagem de Rosa na mente, pois sua presença de espírito é muito intensa e seu olhar é profundo.


Ao longo da trama, a relação entre Rosa e Momo vai se transmutando gradativamente. Uma relação de desconfiança, ódio e traumas não resiste ao encontro de Almas. Momo tem uma alma de menino. Abandonado, órfão, vítima de atrocidades terríveis, imigrante, negro, porém lá no fundo Momo é forte, apaixonado pela Vida e intensamente Humano. Numa das cenas do filme, ele compra uma bicicleta nova e sai pedalando pelas ruas de Nápoles, a alegria expressa em seu sorriso ao fazer isso, traduz a alma inocente e profundamente Humana daquele personagem. Já Rosa é outra personagem intensamente Humana também que vive o fim dos seus dias, já tendo passado por tanta coisa na Vida, tantos desencontros, tantos sofrimentos e tantas alegrias. Essas duas Almas gigantes, ao se encontrarem, debaixo do mesmo teto, superam tudo. As diferenças de idade, de geração, de religião e de etnia são diluídas nesse encontro profundo.



O filme é baseado no romance La Vie devant soi (A vida pela frente), do escritor francês Romain Gary, que foi piloto durante a Segunda Guerra Mundial. A ideia central do livro, e do filme, é mostrar que se fosse possível promover o encontro verdadeiramente Humano de pessoas em posições diametralmente opostas, como o algoz e a vítima, ou o intolerante e o intolerado, ou que estão em posições étnicas e religiosas distintas, como acontece entre judeus e árabes na palestina, esse encontro profundo de Almas levaria essas pessoas a uma União, ao Amor e a uma superação das condições que produziram o ódio entre si.


Há um lugar no centro da Alma Humana que é só Amor, lá o ódio não consegue entrar, não há medos, não há intolerância, nem abandono, nem violência, nem rejeição. No filme, Rosa tem um quarto escondido no centro de sua casa, que somente ela acessa e se tranca, quando as coisas vão muito mal. Esse quarto é um símbolo físico desse lugar interno e puro dentro de nós. Momo consegue entrar nesse espaço. É dentro desse lugar profundo da Alma de Rosa, fisicamente representado por esse quarto no porão, que brota a relação de Amor entre os dois personagens de Vidas tão distintas mas tão similares ao mesmo tempo, tão bombardeados pela Vida.



O filme é um convite para encontrarmos esse lugar profundo dentro de nós. O lugar puro, imaculado, onde não alcança o ódio, onde não há traumas nem medos, apenas Amor e acolhimento. A nossa Alma nunca precisou tanto encontrar esse lugar como agora, diante de tantas tragédias humanitárias que nos amargam. Em meio a tanta violência, intolerância e discórdia, só é possível superar isso encontrando o Amor, e, como dizia Leon Tolstói: “Onde existe o amor, Deus aí está.”


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