Precisamos Sair dos Trilhos



O curta-metragem “Cogs” (Engrenagens) de 2017, dirigido pelo ganhador do Oscar Laurent Witz, marcou o lançamento de uma organização australiana chamada AIME, que tem como meta a superação das diferenças sociais através da educação. O filme levou um ano para ser feito e descreve o mundo como a reprodução de um sistema rígido, mecanizado, em que todos os comportamentos sociais são resultantes de um sistema de máquinas. Dois motores geram a vida da cidade e os passos de cada pessoa são controlados através de sapatilhas presas a um emaranhado de trilhos.





Na primeira cena, dois garotos estão sentados em uma colina estudando, olham um para o outro e sentem a necessidade de partilhar o conhecimento, mas não conseguem, pois o sistema de trilhos não permite essa interação.


Essa animação nos convida a pensar um pouco sobre a mecanicidade das relações. Como somos tão condicionados a reproduzirmos padrões em função do lucro, do consumo, do mercado. Padrões estabelecidos sutilmente pelas redes sociais, pelas séries de TV, padrões que atendem a interesses corporativos, e que são impostos à coletividade de forma invisível, subliminar e sorrateira. Reproduzimos esses padrões não porque queremos, não é uma escolha, mas porque nem mesmo percebemos que estamos nos trilhos, é fruto de uma ignorância, de uma espécie de cegueira.



Por exemplo, segundo estudos sérios relacionados à economia, a camada 1% mais rica da população vem acumulando mais riquezas que todas as 99% restantes. Isso não pode ser razoável, há algo errado nesse padrão de acumulação. Quando a gente olha para a Natureza, vê que o padrão é outro, imagina se o coração retivesse todo o sangue do corpo só para si? Na Natureza, a lógica não é de acumulação, mas de fluxo, de distribuição, de colaboração.


Não queremos dizer que o enriquecimento é ilícito, nem mesmo que grandes empresários são pessoas más, porém, esse sistema que só separa as pessoas e não permite a interação humana é, de fato, muito nocivo.


Reproduzimos padrões errados porque estamos todos cegos diante deles. No pensamento antigo, o filósofo Platão conta a história de uma sociedade que vivia presa no fundo de uma caverna, todos amarrados, olhando para as paredes e vendo sombras. Para eles, a realidade eram aquelas sombras, até que um dos moradores se inquieta e com muito esforço consegue romper as amarras e sair da caverna. Ao se deparar com o mundo lá fora, vívido, cheio de cores, iluminado pelos raios poderosos do Sol, aquele morador resolve voltar e libertar os outros.



Mudar o mundo não é só uma aventura dos jovens, é uma questão de visão. Quando enxergamos a lógica por trás do funcionamento dessa engrenagem social, começamos a nos libertar. É preciso se soltar dos trilhos, sair do padrão, é preciso ousar, é preciso fazer diferente, porque esta civilização está necrosando pouco a pouco. Crises migratórias, convulsões sociais por toda parte, aumento do crime organizado, aumento descomunal na mortalidade infantil em países como Somália, Haiti, entre outros, são alguns dos fatos que demonstram essa decadência. Se amamos a Humanidade profundamente, então temos que sair dos trilhos.


Como diz no final do curta: “se queremos mudar o mundo, precisamos mudar a forma como ele funciona”. Então, ao terminar de ler esse texto, faça diferente, colabore ao invés de acumular; sirva ao invés de reter tudo para si. Mas é importante perceber que, não adianta simplesmente ser movido por um “ódio ao sistema”. Assim como Cristo, Buda, Martin Luther King e tantos outros verdadeiros revolucionários nos ensinaram, o combustível para uma mudança positiva é sempre o Amor. Mas esse Amor deve se tornar objetivo. Não adianta “amar a Humanidade”, mas odiar ao próximo. É preciso se oferecer para ajudar, de forma direta e objetiva alguém que precisa da sua ajuda. É no convívio e na entrega à cada Ser Humano, de 1 a 1, coração com coração, que conseguiremos alcançar uma verdadeira evolução.



Então, liberte-se dos trilhos pré-estabelecidos, amplie a visão, veja os raios poderosos do Sol que aparecem todos os dias sem querer nada em troca, e que nos dá tanta Vida e tanta Luz. Precisamos sair dos trilhos por um mundo novo e melhor e por um Ser Humano novo e melhor.


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