Por que Sócrates tinha razão sobre a Democracia?


Seja no colegial ou na universidade, todos nós já tivemos algum contato com as ideias do filósofo Sócrates. Muitas das que sabemos a seu respeito só foi possível graças ao seu discípulo Platão que o imortalizou em suas clássicas obras. Sócrates, foi descrito como um homem que possuía um Amor profundo pela Verdade e uma busca sincera pelo conhecimento. Corajoso, sábio e oriundo de uma família simples, apesar de analfabeto, esse filósofo foi uma figura muito importante para a constituição do pensamento e da racionalidade do mundo grego.


Gostava de caminhar pela polis grega e, à medida em que encontrava as pessoas, ia despertando nelas o interesse pela busca do conhecimento. Assim, filosofava para toda a população nas praças públicas e, quase sempre, estava cercado de jovens que se reuniam à sua volta para ouvi-lo e aprender de seus conhecimentos.

Em oposição aos sofistas de sua época, que falavam em demasia e de forma muito rebuscada, Sócrates criou o método dialético, o “dia logos”, onde a partir da oposição de dois pensamentos se busca uma clarificação ulterior através do uso da razão. Para o filósofo, o conhecimento deveria estar acessível a todas as pessoas e por isso tinha como objetivo levar a filosofia através de uma linguagem simples e clara. Vale ressaltar, que os diálogos socráticos são reconhecidos como um dos importantes instrumentos filosóficos na busca e construção do conhecimento. Atribui-se também a esse filósofo a promoção do silogismo lógico e o uso da razão, entretanto, para Sócrates só a razão não era o suficiente para se chegar à Verdade. Uma vez que, para o sábio grego, além da razão era necessário ao Indivíduo a posse do Discernimento.


Fundador da filosofia ocidental, Sócrates foi um dos maiores expoentes gregos que a história já teve. Mas, apesar de todo esse legado e contribuições para o conhecimento ocidental, o pensamento político de Sócrates foi duramente criticado ao longo da modernidade por alguns filósofos e autores das ciências políticas. As suas críticas ao sistema democrático, muitas vezes, foram vistas como ideais elitistas. Na verdade, as suas ideias sempre incomodaram. No seu momento histórico, o seu pensamento era tido como subversivo ao Estado e se tornou uma ameaça, inclusive, para os políticos de sua época. Sendo por fim, acusado, julgado e condenado “democraticamente” à morte sob a acusação de desvirtuar os jovens.



Entretanto, há quem acredite que o filósofo grego viu além do seu tempo, possuindo ideias profundas falou sobre uma forma de sociedade e de governo que ainda estava no porvir, no processo de evolução da Humanidade e, por isso, foi incompreendido no seu tempo. Seja como for, a verdade é que para entender as suas ideias e o pensamento político clássico da Grécia, precisa-se ir além de uma compreensão política, necessita de uma chave de interpretação filosófica. Pois, estamos falando de homens com um nível de conhecimento que transcende às esferas públicas, estamos falando de sábios que se propuseram a estudar a Alma Humana, as Leis da Vida e como elas se expressavam na existência dentro do tempo e do espaço.

O que faz com que um dos maiores expoentes do conhecimento humano se posicione de forma contrária à democracia? Como um homem com um nível moral como o de Sócrates pôde fazer críticas tão contundentes a esse regime? O que esse filósofo viu, que nós não vimos? Quais os seus argumentos e por que foi coerente com eles até o dia de sua morte?

Sem dúvida, não é por acaso que para Sócrates, assim como para Platão, a democracia é um dos piores sistemas de governo que existe. Para esses filósofos, o regime democrático já nasce fadado à derrota devido à sua origem e constituição, só perdendo em termos de qualidade para a tirania, que é considerada a pior e a mais danosa forma para se governar as pessoas.

Entender a visão política de Sócrates, vista sob a ótica de Platão, pode nos ajudar a compreender o nosso próprio momento político, além de nos ajudar a refletir sobre as origens e as crises das formas de governo atuais, nos alertando para as perspectivas futuras.



Porém, quais são os argumentos de Sócrates contra o sistema democrático? O seu posicionamento político frente a essa temática pode ser encontrado em um dos livro que compõe a obra “A República” de Platão, onde o personagem principal é o próprio Sócrates que, ao lado de Glauco, Polemarco, Adimanto e Trasímaco protagoniza uma das narrativas mais importantes no diálogo sobre a Justiça. Tema central do livro, que tenta buscar o conceito universal de Justiça e entender como ela se expressa no Indivíduo e no mundo. Para encontrar respostas para essas questões, Sócrates propõe a criação de uma cidade ideal, que será organizada a partir das necessidades dos Indivíduos.

Tendo em vista que um Indivíduo tem várias necessidades e sozinho ficaria difícil de atendê-las, surge a necessidade de se organizar em coletivos, e para isso, cada Indivíduo teria que ser responsável por um único ofício e fazê-lo da melhor forma. Viver em sociedade, na visão do filósofo, exigiria que o Indivíduo, à medida que produzisse o seu ofício, deveria se realizar e aportar para a sociedade o que de melhor ele tinha, tudo isso através de sua vocação. Naturalmente, com os Indivíduos realizados e cumprindo seus papéis frente à cidade, a qualidade de vida da população cresceria juntamente com a necessidade de expansão e proteção. Nesse contexto, surgiria o ofício do guerreiro ou do guardião da cidade para defesa ou ataque em momentos de guerras. Mas, quem governaria essa cidade? É justamente nesse momento que Sócrates começa a aprofundar as suas ideias políticas.

Para a filosofia clássica, o Indivíduo e a sociedade não nascem prontos, mas são construídos dentro de um processo educativo onde quem deve governar e tomar decisões deve ser a parte mais sábia, tanto internamente, quanto externamente. Assim, quem deve governar dentro do Indivíduo deve ser a razão iluminada por uma Virtude e consequentemente, quem deve governar na sociedade deve ser os homens mais bem preparados pela Vida, ou seja, os que mais venceram suas debilidades e que puderam dar respostas às adversidades da Vida. Quem deve liderar a coletividade deve ser os mais virtuosos, os que mais se identificam e praticam as Virtudes e os que mais se colocam a serviço da sociedade. Na compreensão política de Sócrates todas as características citadas acima são atributos do verdadeiro filósofo, condição que um dia todos nós devemos alcançar. Só assim, a cidade poderá ser conduzida e iluminada através dos exemplos práticos desses governantes.

Desta forma, para o Indivíduo, não é suficiente só o uso da razão, mas também o Discernimento do que é prudente e o que não é. Quanto mais referências internas esse Indivíduo construir, mais Ordem, mais Harmonia e mais necessidade terá de uma organização externa. Mas como aprender a ter Discernimento? De acordo com Sócrates, através de um processo de educação da personalidade, na qual cada pessoa viva de uma maneira coerente e una o que se pensa, com o que se sente, de forma que ambos se traduzam em ações, pois é dos Valores que os Indivíduos carregam, que se produz a sua forma de organização coletiva.

O livro “A República de Platão” afirma que há cinco formas de governo que se alternam num ciclo degradativo e, para cada perfil de cidadão, existe uma forma de governo correspondente. O ciclo começa pela Aristocracia, representada pelo governo do mais sábio. Essa é a melhor forma organizativa, mas com o tempo esse sistema tende a decair para o governo da Timocracia, onde o valor predominante no Indivíduo e na sociedade é ânsia pela honra a todo custo. A seguir, o sistema decai ainda mais e passa para a Oligarquia, na qual a tônica já não é nem a Sabedoria e nem a honra, mas os bens materiais, começando aqui a luta e a fragmentação da sociedade, culminando com a transição para o sistema democrático.



No sistema democrático, segundo Sócrates, os ricos e os pobres travam uma luta pelo poder de governar, a lei perde a força e já não se há critérios claros para quem governa ou para quem é governado, cada um procede da forma que bem entender. A cidade fica sem norte, sem referenciais e os Valores se invertem. Por exemplo, numa sociedade democrática, a insolência pode ser vista como boa educação, ou a indisciplina como sinônimo de liberdade, ou ainda o despudor como expressão de coragem. Nesse contexto, a intensidade da busca por liberdade individual para a prática dos desejos e dos instintos levará toda a sociedade ao caos e a degeneração, nela não se respeita mais as leis nem as autoridades. Diante do caos estabelecido, onde os Indivíduos já não conseguem ter mais controle sobre os próprios instintos, a sociedade clama por um “Salvador ou um grande líder” que governe a si e retorne a ordem natural da sociedade. Aqui nasce o quinto e último sistema de governo, que chama-se tirania, em que a pior parte da cidade governa as demais. Nessa altura, os Indivíduos estão sendo governados pelos seus piores desejos e instintos até cansarem e exaustos retornarem à origem e reconhecerem a importância do governo aristocrático.

Felizmente, hoje já se revisa muita coisa a respeito das críticas feitas a Sócrates, por exemplo, já se consegue encontrar facilmente nas plataformas streaming, vídeos, artigos e estudos que já ponderam as críticas ao filósofo. A “The School of Life”, empresa Londrina criada por vários intelectuais, já produziu artigos interessantes sobre o pensamento político de Sócrates. Em um artigo produzido por essa instituição, intitulado “Why Socrates Hated Democracy”, em português, “Por que Sócrates odiava a democracia?”, faz uma reflexão muito boa a respeito das concepções de Sócrates sobre a democracia. Isso já sinaliza a possibilidade de um novo olhar para a obra e para o autor que, certamente, possibilitará uma melhor compreensão sobre as ideias desse filósofo.



Contudo, diante do olhar político de Sócrates expresso na obra “A República” a respeito das suas críticas ao sistema democrático, dificilmente, aqueles que conseguirem aprofundar um pouco mais a leitura através de uma chave de interpretação filosófica discordariam dele. Pois se para qualquer coisa que façamos na sociedade, seja para uma consulta médica, ou para viajar de avião, esperamos que a condução seja feita pelos mais bem preparados, os mais competentes, por que então para governar uma cidade que é muito mais complexo, utilizamos outros critérios? Como já foi citado anteriormente, a forma como nos organizamos socialmente é um reflexo direto da nossa ordem interna, por isso, o trabalho deve ser realizado primeiro dentro e não fora. A necessidade de uma formação individual, onde se aprenda a expressar as Virtudes e os Valores mais elevados da Alma Humana não é só necessária, mas condicional para se viver em sociedade.

Quatro Virtudes são vitais ao Indivíduo e à sociedade Humana: a Prudência (Sabedoria), o Valor (Coragem), a Temperança (Equilíbrio) e a Justiça. Por isso, quanto mais compreendermos e vivermos essas Virtudes, mais nos realizamos enquanto Indivíduos, e consequentemente, mais preparados nos tornamos para conviver em sociedade. Dito isto, uma cidade só pode ser considerada Prudente quando quem delibera o faz de forma acertada. E olhando por essa linha de raciocínio, Sócrates tinha razão.


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