O romance de Tristão e Isolda faz parte da nossa vida.

“Quereis ouvir, senhores, um belo conto de amor e de morte? É de Tristão e Isolda, a rainha. Ouvi como em alegria plena e em grande aflição eles se amaram, depois morreram no mesmo dia, ele por ela, ela por ele.”



É assim que Luis Claudio de Castro e Costa traduziu as primeiras frases do livro de Joseph Bédier: O romance de Tristão e Isolda (Editora Martins Fontes, 2014). Assim começa uma das mais belas histórias de cavaleiros que povoaram o imaginário da nobreza da Idade Média. A história de Tristão e Isolda foi contada e recontada em formato de trova (poesia medieval) várias vezes por mais de mil anos. Coube ao linguista francês Bédier coletar o máximo de versões possíveis, reuni-las e escrevê-las em prosa no início do século vinte.


Essa é uma história de Amor e morte, como você leu no spoiler do início do texto. Vítima de uma tragédia na infância, órfão de pai e mãe, nosso herói Tristão é criado por Rohalt, um fiel amigo de seu pai, na região de Lonnois. Após ser sequestrado por mercadores, ele termina desembarcando no reino da Cornualha, governado por seu tio Marc. Mas, ambos não sabem que são parentes. Todos ficam admirados pela beleza e delicadeza de seus costumes. O rei o acolhe tão bem, que após recuperar sua terra natal das mãos do assassino de seu pai, Tristão volta para servi-lo. - Deixo minha terra a meu pai Rohalt e meu corpo para meu pai Marc, ele disse.



Nessa época, a Irlanda cobrava um pesado tributo a Cornualha: 300 jovens de ambos os sexos, de 15 anos que trabalhavam como servos. Para buscá-los, o rei da Irlanda enviou Moholt, um cavaleiro com a força de quatro homens. Ele deu um ultimato ao rei Marc: pagar, ou desafiá-lo em um combate até a morte! Todos os barões do reino tremeram. O corajoso Tristão, então, lançou-se em combate, derrotou o algoz e livrou o povo do triste destino.

Porém, mortalmente ferido, ele pede para ser colocado em um barco e jogado à deriva no mar, apenas com sua harpa como companheira. Coube ao destino então, levar sua embarcação até o reino inimigo. Lá, após convencer a todos que era um mercador, é tratado pela bela Isolda, filha do rei irlandês. Sem saber, ela cura o homem que mais odiava, o assassino de seu tio Moholt.


Assim que pôde, Tristão fugiu do perigoso reino, e mais distante em sua casa, seu tio sofria pressões de seus barões. Eles exigiam que se casasse com a filha de um rei e gerasse um herdeiro ao trono. Mas, o rei amava seu sobrinho e pretendia deixar-lhe o reino. Encurralado, ele tenta enganar seus nobres. Duas andorinhas entram pela janela e trazem em seus bicos um fio dourado. O rei promete casar-se, desde que os nobres lhes tragam a dona daquele fio de cabelo, esperando que ninguém o possa fazer. Em nome da honra e disposto a salvar o tio de uma rebelião, Tristão se encarrega de trazer a donzela. Ele reconheceu que o cabelo pertencia à bela Isolda.

Mas, a Irlanda não aceitaria que sua princesa casasse com o rei de seus adversários. Nem a própria Isolda concordaria em casar-se com aquele que foi o responsável pela morte do irmão de seu pai. Nesse momento, surge o tradicional personagem dos romances de cavalaria, um dragão que atormentava aquele país. O rei então prometeu dar Isolda em casamento para quem o derrotasse, mais uma aventura para nosso protagonista. Ele mata o animal e anuncia que levará Isolda para desposar seu tio Marc.

Isolda fica revoltada, além de matar seu tio, esse cavaleiro a rejeita como esposa! Não há o que se faça: ela terá que cumprir com um casamento que trará paz à região. Sua mãe, apiedada, prepara uma poção mágica para que ela e o futuro marido tomem e se apaixonem. Durante a viagem, Tristão e Isolda acidentalmente tomam a bebida e tem início um Amor que vai escandalizar toda a Cornualha.

Muitas aventuras viveriam os dois amantes, que por diversas vezes arriscaram-se, lutaram contra diversos inimigos de seu Amor. O Amor ilegal, mas sem culpa, que eles carregavam, os colocavam sempre entre dois mundos. De um lado, o desejo ardente de ficarem juntos, do outro, a voz persistente da nobreza de seus caráteres. No momento em que esta voz venceu, separaram-se por Amor ao grande rei Marc. E desse desencontro, Tristão encontra outra Isolda, a de Mãos Brancas e com ela se casa. Convencido de seu erro, segue fiel a Isolda, a Loura, nunca desposando sua companheira. No fim, após mais um ato de valentia, mortalmente ferido pede a seu grande amigo e cunhado Kaherdin que lhe traga a razão por que ainda habita aquele corpo. Sua esposa enraivecida e enciumada, o faz crer que a rainha da Cornualha não virá ao seu encontro. Abandonado por sua vida, morre. Isolda chega e recebe a notícia: Tristão jaz frio no leito, ela também já não pode viver, morre de dor por seu amado.



Os romances de cavalaria se juntam a várias grandes histórias ao longo da Vida Humana: os anais da primavera e outono na China, as histórias de semideuses e heróis da Grécia e de Roma, as grandes epopéias hindus, a tradição dos povos africanos e americanos. Todas elas tinham dupla função. Além de entreter, forneciam o modelo de Ser Humano que as sociedades queriam formar. Tristão e Isolda parecem fugir desse modelo, eles vivem um Amor clandestino e condenável aos olhos da época. Mas, ao ler o livro, esta impressão muda, e nota-se que tudo o que acontece conspira para mantê-los sempre Nobres e Generosos.

Ao tomarem uma poção mágica, seu Amor não é fruto de uma cobiça desleal, mas antes, o resultado de um acontecimento fortuito. Portanto, ainda que flexibilizem a moral de seu tempo, Tristão e Isolda continuam sendo apresentados como modelos de cavalheiro e dama. Ela é altiva, mas Generosa, Bela, Corajosa e Piedosa. Ele é Audaz, Forte, Vigoroso, Leal e Afável. Juntos, eles conseguem não apenas a Felicidade, mas a força para enfrentar os maiores desafios. Pensar neles como sugestões para inspirar os homens e mulheres de hoje talvez soe descolado da realidade (nos deixa com um ar meio Quixotesco). Mas, podemos pensar que todos temos um lado Valoroso e Generoso. Cada um com sua especificidade pode invocar o poder do cavaleiro para lutar contra as injustiças, cada um pode trazer à tona a Generosidade para lidar com os outros.



E não é de pessoas assim que o mundo precisa? Pessoas que conseguem unir essas duas dimensões em si mesmo? Essa é a grande aventura da Vida. Não deveríamos estar em busca de conforto, riquezas, proteção, reconhecimento, prazer. Deveríamos lutar contra todas as intempéries de um mundo que trata o Generoso como ingênuo e o Corajoso como burro. Tente encontrar na sua Vida um momento em que você agiu como um cavaleiro caridoso, ou como uma princesa nobre. Não foi Felicidade o que você experimentou nesse momento? Era o Tristão em você, que se esgueirava pelo pomar do castelo de Tintagel e beijava a bela Isolda. Era a Isolda em ti, que segurava o ferro em brasa para provar sua Pureza. Talvez, seja necessária uma poção mágica para uní-los, ou talvez não. Talvez seja necessário apenas que acreditemos nesta ideia e a vivamos.

Os amantes não podiam viver nem morrer um sem o outro. Separados, não era a vida, nem a morte, mas a vida e a morte ao mesmo tempo.



Posts Relacionados

Ver tudo
DIFICULDADE COM AS LEGENDAS?

Caso você não saiba ativar as legendas nos vídeos do youtube, clique aqui para acessar o tutorial.

  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon
  • YouTube Social  Icon
Procurar por Tags
Histórico de publicações
Siga essa Idéia
Você também vai gostar

© 2017 por "Equipe Feedobem". Orgulhosamente criado pela Feedobem

    Gostou do nosso portal? Nos ajude a elaborar artigos e

conteúdos cada vez melhores para vocês. ;-)