A ironia do Rei Momo


Existe um famoso ditado popular que diz que o ano só começa depois do carnaval. Mas, o que marca o início dessas festividades? Tradicionalmente temos a figura do Rei Momo e a simbólica entrega das chaves da cidade para esse novo governante. Esse ato marca a abertura das festas carnavalescas. A partir daí conhecemos bem a história: quatro dias de folia, diversão e os mais variados tipos de prazeres. Mas e antes? Qual a origem do Rei Momo e por que ele é um dos símbolos do carnaval?



Para responder essas questões precisamos voltar um pouco no tempo. Mais precisamente 2.400 anos, quando o carnaval era uma festividade sagrada entre antigos romanos. A ideia do carnaval para os romanos continua muito próxima dos dias atuais, que é a de subversão da ordem e predomínio dos prazeres, entretanto, o significado interno dessa festividade estava ligado à Purificação. Para os antigos os prazeres sensíveis, que são aqueles relacionados com os cinco sentidos, quando vividos de forma descontrolada, degeneravam o homem e o tornava um escravo dos seus próprios desejos. Do mesmo modo, se a repressão desses prazeres ocorresse de maneira muito abrupta, os Seres Humanos seriam infelizes por não conseguirem viver sem esses prazeres. Qual seria a solução para esse dilema? Os romanos, que em seu calendário dedicavam vários dias para celebrações, criaram o carnaval para que, naqueles dias, os prazeres tivessem a liberdade de manifestar-se em sua maior potência. Para além disso, contam alguns relatos que após alguns dias de festa a maioria dos romanos insistiam pelo fim do carnaval e a volta da ordem social. Essa, portanto, era a Purificação: a percepção de que os desejos não podem comandar o Ser Humano e que este, por mais atado que esteja aos seus desejos, necessita de um verdadeiro Rei e não de um rei momo. Mas, afinal, o que é um Rei Momo?



Momo, segundo a mitologia grega, seria a Deusa da zombaria e da ironia. Respeitada pelos poetas e artistas, principalmente os que escreviam comédias, Momo era filha de Nix, a Deusa da noite, que a gerou sozinha. Por suas características, Momo é geralmente vista como uma subversora da ordem celeste, pregando peças a outros Deuses e criticando-os. Durante os festejos do carnaval, os governantes romanos saíam da cidade e a deixavam sob os cuidados de um rei “fantoche”. Ele teria as chaves da cidade para guardá-la e, durante aquele período, tudo poderia ser feito. Devido ao caráter de ironia presente nesse papel de rei, passou-se a chamá-lo de Rei Momo, uma referência direta à Deusa.



Essa troca de reis é um terreno fértil para reflexões, pois simboliza a maneira que tomamos nossas decisões cotidianas. Pensemos no nosso dia a dia: quantas vezes buscamos fazer algo pelo nosso prazer? seja conversar com uma pessoa que nos é agradável, ou comer uma sobremesa que o médico nos proibiu, mas era “só um pedacinho”. Se analisarmos com cuidado poderemos perceber que, na grande maioria dos casos, nossas ações estão fortemente ligadas ao que nós gostamos de fazer e o que não gostamos de fazer. Quando a atividade desempenhada nos agrada, então buscamos fazê-la o mais rápido possível. Porém, as tarefas “chatas” tentamos evitar ao máximo. Partindo disso, podemos relacionar o Rei Momo a forma com que tomamos nossas decisões quando baseadas somente no prazer. Ele não busca o melhor para o todo (nesse caso, o organismo), mas só o que lhe agrada. Um verdadeiro Rei, entretanto, tem por obrigação moral pensar sempre nos seus cidadãos e tomar as decisões mais acertadas, independente do prazer e da dor. No nosso caso, podemos relacionar a nossa obrigação moral com fazer o nosso dever, independente se a atividade em questão nos agrada ou não. Quando, portanto, nos pegarmos em dúvida sobre como atuar perante uma situação, pensemos nesses dois Reis: quem está comandando nossas decisões? Poderemos nos questionar se essa ordem foi dada por um Rei de verdade e está, portanto, pautada no que deve ser feito, ou por um Rei Momo, que nos guia pelo caminho dos instintos. Por vezes achamos que estamos no controle das situações e que “mandamos em nós mesmos”. É comum chamarmos essas decisões de livre arbítrio ou até mesmo liberdade. “Sou livre para seguir os meus instintos e buscar prazer”. Mas será que somos livres, ou estamos dominados por essas sensações ao ponto de não termos forças para recusá-las? São perguntas que não cabem serem respondidas aqui, mas certamente deveríamos pensar a respeito pois, tal como no fim do carnaval, é importante que a ordem volte a reinar e os instintos sejam contidos.



Ao contrário do que imaginamos, o carnaval, desde a Roma Antiga, foi duramente criticado por alguns filósofos e cidadãos. Sêneca, um dos maiores expoentes do estoicismo, por exemplo, não compreendia a necessidade de se ter dias para “beber, comer e ter todos os prazeres que quisessem, já que os romanos viviam isso todo o ano”. A crítica de Sêneca mostra que, ao longo do tempo, o real sentido do carnaval foi sendo deixado de lado e o aspecto mais físico e objetivo foi realçado. Comparando com o modo que vivemos o carnaval em nossa cultura, podemos refletir sobre como a festividade, para nós, não tem nenhum sentido a não ser o da vivência dos prazeres.


Recolocando a dúvida de Sêneca para os dias atuais, será mesmo que precisamos de quatro dias dedicados completamente aos nossos instintos? Será que, em algum grau, a maioria dos nossos dias já não são dedicados aos nossos prazeres? Quando pensamos, por exemplo, nas nossas motivações profissionais, elas raramente estão atreladas a ajudar alguém com o nosso conhecimento, mas sim em ganhar dinheiro para comprar objetos de valor ou viajar. Do mesmo modo, comumente vemos o excesso de bebida e comida como algo positivo, quando causam danos à nossa saúde e demonstram um claro descontrole de nossa parte. Não queremos, entretanto, extinguir o carnaval, muito menos tolher a liberdade de ação das pessoas, mas sim ressignificar a festividade e seus símbolos a partir da nossa postura.


Se conseguirmos colocar um sentido profundo na Vida, seja nas festas que participamos, no trabalho que exercemos ou na convivência com as pessoas que amamos, certamente assumiremos outra vez o comando de nós mesmos, deixando, assim, de estar reféns das experiências negativas ou de agir somente em busca do prazer. Poderemos discernir o momento de viver os prazeres sensíveis e quando, por nossa própria escolha, deixá-los de lado para alcançar um outro objetivo, mais digno e em Harmonia com nossos princípios. Se assim fizermos, poderemos, tal qual na alegoria do carnaval, devolver as chaves da nossa cidade interna para o nosso verdadeiro Rei, obtendo Ordem e Domínio sobre nós mesmos.



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