Os Incas: A Misteriosa Civilização Filha do Sol


Há 1.000 anos, na região onde hoje é a Colômbia, o Chile e a Argentina, desenvolvia-se uma civilização completamente diferente do que hoje entendemos como tal. Com cerca de dez milhões de habitantes, falando cerca de trinta línguas diferentes, e mais de quarenta mil quilômetros de estradas, a misteriosa civilização Inca é um enigma a ser decifrado pelos arqueólogos, mitólogos e historiadores contemporâneos. Um mundo de mitos, símbolos, formas religiosas e sistemas de governo que nasceu, se desenvolveu e atingiu o seu apogeu em uma região tão próxima de todos nós, e em um tempo não tão distante assim, mas que conhecemos tão pouco.




Quando os espanhóis chegaram naquela região no Século XVI, com o objetivo de colonizar e explorar o território, depararam-se com essa civilização que já se encontrava em decadência, mas o modo como se organizavam politicamente demonstrava uma sofisticada forma de governo, desconhecida para a cultura europeia.


O que permitiu o surgimento de um Império dessa magnitude foi a reunião desses povos em torno de um centro. Mas como conseguiram fazer isso? Como povos tão diversos, habitando uma região de climas e relevos tão disformes, falando tantas línguas diferentes conseguem se reunir em torno de um centro e desencadear um processo civilizatório? A resposta para essas perguntas pode estar na mitologia. Os mitos, muito longe de serem mentiras, são alegorias que trazem em si ideias, intuições e descobertas muito profundas sobre o Universo e a Natureza Humana. O mito é o recurso do qual os Humanos se valem quando precisam ter contato com ideias tão sublimes e tão sutis que a linguagem concreta, imediata e informativa não tem capacidade de expressar.



Um desses mitos conta que o Sol gerou um filho e o colocou entre os homens para governá-los. Assim, o governante, a quem chamavam de Sapa Inca era o filho direto da estrela solar. Se olharmos para isso com as lentes da nossa contemporaneidade, de imediato é possível que achemos uma ideia absurda, mas é preciso se permitir deslocar-se um pouco para entender o mito dentro do contexto dos Incas e perceber a riqueza simbólica dessa linguagem.


Assista o vídeo abaixo:




Hoje temos recursos tecnológicos para observar como funciona o sistema solar, o nosso planeta gira em torno do seu próprio eixo, gerando os dias e as noites, e ao mesmo tempo percorre uma trajetória elíptica em torno do Sol. Todos esses movimentos acontecendo simultaneamente geram as nossas condições de Vida. Graças a essa ordem cósmica, temos os dias, as noites, as estações do ano, a condições de temperatura e pressão atmosférica que permitem a nossa existência, tudo isso porque no centro desse sistema se encontra o Sol, esse astro poderoso que gera diuturnamente a Vida, a Iluminação, que nos aquece e que o faz com uma precisão matemática impressionante.



Os Incas, de algum modo, conheciam essa ordem inteligente do sistema solar. E não apenas conheciam, mas queriam trazê-la para si, traduzindo-a em seu sistema político. Eles queriam um governo que conseguisse ordenar os povos de maneira tão inteligente, tão harmônica e tão eficiente como o Sol conseguia ordenar os planetas em torno de si. Para isso, era preciso encontrar uma narrativa na linguagem humana que permitisse essa conexão entre o seu sistema político e o sistema astrológico. É daí que nasce a narrativa mítica do Sapa Inca, um ser gerado pelo próprio Sol, que encarnou no mundo dos homens para ordená-los de forma tão inteligente e eficaz quanto o seu pai fazia com os planetas em seu entorno. Os Incas acreditavam nesta narrativa, a viviam em seu modo societário e por isso conseguiram ordenar povos tão diversos, com línguas tão diferentes, em regiões geográficas tão adversas, construindo assim uma civilização inteligente e poderosa.



É claro que esta narrativa mítica não tem o mesmo efeito para a nossa civilização, pois o contexto é outro, mas a verdade que podemos extrair dela é a ideia de que as grandes civilizações somente se tornam possíveis quando encontram esse caminho que permite a reunião dos povos em torno de um centro, que irradia Ordem e Harmonia. Dentro dessa mesma lógica, um sistema morre à medida que essas relações com o centro são esfaceladas, seja porque os astros se afastam do “Sol”, ou porque este elemento central perde a sua Luz.


Esse mito também acontece dentro de nós, basta nos observarmos. Nossa individualidade é uma espécie de civilização, as nossas inúmeras facetas e necessidades (físicas, psicológicas, intelectuais, etc) representam os numerosos povos nesta civilização interna. Nosso autodomínio representa uma forma de governo, um Sol interior que deve unir, equilibrar e iluminar todas as nossas experiências. Assim, seguindo o exemplo dos Incas, podemos entender que a Harmonia e a Ordem em nossa existência está diretamente relacionada ao quanto estamos alinhados com o nosso centro, com o nosso Ideal, com o nosso sentido de Vida. Desta forma, compreendendo um pouco mais essa chave mitológica, que possamos vivê-la e torná-la real e visível para todos, pois só assim, através da mudança interna e gradual de cada ser teremos a chance de um dia construirmos uma civilização baseada nesses Valores e Princípios.


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