Nikè - A Verdadeira Vitória Está Dentro de Nós

November 13, 2020

 

 

Todos desejamos vencer. Em uma sociedade competitiva como a atual, a Vitória é sinônimo de sucesso, fama e prosperidade. Quando nossa visão está voltada simplesmente para aspectos materiais, não é de se estranhar esta relação com a Vitória. Afinal, nesse “jogo” de busca desesperada pelo consumo e pela obtenção de recursos, quem mais acumula dinheiro e bens materiais é, de certo modo, vencedor. Entretanto, do que se trata, em um aspecto mais profundo, a Vitória?

 

 

 

Um antigo provérbio chinês fala que a maior conquista de um guerreiro é a Vitória sobre si mesmo, afinal, somos o nosso pior e mais destrutivo inimigo. Essa frase remete-nos a uma tradição antiga que nos fala sobre a batalha interna travada por todos os Seres Humanos. Podemos encontrar essas ideias na tradição Hindu, no Cristianismo, na Grécia Antiga e até em alguns filósofos modernos. Não é de hoje que travamos batalhas e que buscamos vencer a nós mesmos. A partir disso, podemos refletir sobre do que se trata a verdadeira Vitória. 

 

Como dito no começo do texto, todos desejamos vencer. A Vitória, em diferentes níveis, nos realiza, pois é a prova objetiva do nosso esforço. As Vitórias externas, comumente refletidas em um trabalho bem feito, em um emprego satisfatório ou em um casamento duradouro, são apenas formas de expressarmos o desejo de vencer um desafio interior. Esses desafios, certamente, envolvem elementos internos, que nos obrigam a olhar para nós mesmos, nos auto conhecermos e nos dominarmos. 

 

 

Ao pensarmos sobre a Vitória nas culturas clássicas veremos que na Grécia Antiga a Vitória era representada por Nikè, uma Deusa alada que estava sempre próxima de Atena, a Deusa da guerra estratégica e da Sabedoria. O fato das duas Deusas serem representadas juntas não é coincidência. A Vitória relaciona-se com a Sabedoria porque esta exige um conhecimento preciso acerca da Vida. O sábio, afinal, é aquele que sabe. Sabe, de forma pura e objetiva, a essência da Vida, das Leis e de si mesmo. É aquele que venceu seu inimigo interno e por isso conhece sua capacidade, finalidade e existência. Duvidamos, portanto, que a Sabedoria nos trará, indubitavelmente, a Vitória? Isso não significa dizer que ela será fácil. Ter a posse de si mesmo, sem dúvida, é fruto de uma árdua e longa batalha. Não por acaso a Deusa da Sabedoria também é a Deusa da guerra, uma vez que representa esse combate interno e externo que temos que fazer diariamente em nossas Vidas.

 

Visto isso, Nikè busca pousar naqueles dispostos a vencer a si mesmos, sacrificando, muitas vezes, a própria existência. Ao olharmos para a própria história da Grécia Antiga, podemos encontrar exemplos dessa natureza. Poderíamos falar de Leônidas e seus 300 espartanos, de Sócrates e seu julgamento, mas pensemos em um exemplo que envolve a própria Nikè: a famosa Batalha de Maratona e o grego Fidípides. 

 

 

Fidípides foi um soldado grego que lutou na primeira Guerra Médica. Além de soldado, ele cumpria a função de entregar mensagens quando necessário. Certa vez, por exemplo, ele cumpriu o feito de percorrer, a pé, mais de 200 km em pouco mais de um dia. Porém, esse não foi o maior de seus feitos. 

 

Durante a primeira Guerra Médica, Dario I, o Rei do Império Persa, invadiu reinos ao norte da Grécia, como a Macedônia e a Trácia, e em seguida buscou atacar Atenas. Ele desembarcou na região de Maratona, que ficava cerca de 42 km da principal Cidade-Estado grega. Visto a extensão do exército Persa e as chances reais de derrota da falange grega, foi ordenado à população ateniense que, caso não recebessem notícias sobre o resultado da batalha, a cidade deveria ser incendiada e seus habitantes cometeriam suicídio, para evitar um destino pior na mão do inimigo. A batalha, porém, que entraria para a História como a “Batalha de Maratona” foi favorável aos gregos, graças a estratégia do general Miltíades. Porém, apesar do sucesso militar, ainda seria necessário avisar, o mais rápido possível, sobre a Vitória.

 

 

É nesse momento que Fidípides entra em ação. Mesmo cansado e ferido, o mensageiro é incubido de levar a notícia até Atenas e evitar o trágico destino da cidade. Dando tudo de si, Fidípides percorreu os 42 km de distância e, exausto, chegou até Atenas. Proferiu então sua última palavra: “NIKÈ! Vencemos!”. Em seguida morreu devido aos ferimentos e ao esforço feito. 

 

Talvez você esteja pensando, caro leitor, que o sacrifício de Fidípides não é uma Vitória, afinal, ele morreu. Porém, procuramos pensar que esse grego conseguiu, em seu esforço e cumprimento do dever, algo que nos dias atuais nos falta bastante: a capacidade de sacrificar a nós mesmos pelos demais. Certamente o esforço dele não foi em vão, visto que Atenas não foi incendiada e sua população continou viva. Além disso, o ato de não se permitir descansar, e nem mesmo morrer, antes de ter feito o que lhe cabia é, sem dúvida, admirável e honroso, não apenas por ter salvo a cidade, mas também por ter vencido o medo da morte, as dúvidas e qualquer outra emoção que tenha tentado possuí-lo. Percebemos aí o espírito da Deusa Nikè, a Vitória que temos ao vencermos nossos medos e inseguranças, estes que, certamente, não somem com golpes de espada ou adquirindo fama e sucesso. A verdadeira Vitória se dá ao calar os nossos sons internos que gritam e nos paralisam. Se dá no silêncio obtido após o cessar dessas vozes. Nesse momento podemos, se prestarmos bem atenção, sentir Nikè pousando com suas asas na palma de nossas mãos e nos elevando, por alguns instantes, ao pleno saber da Vitória. 



 

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