A Distância entre o Conhecimento e o Saber

November 10, 2020

 


 

O que entendemos por conhecimento hoje, de forma imediata, é o domínio da informação. Costumamos associar uma pessoa conhecedora a alguém que sabe de muita coisa, que fala muitos idiomas, cita muitos autores, têm muitos títulos acadêmicos, domina muitas áreas do conhecimento e é capaz de dissertar sobre uma variedade de assuntos. Mas quando olhamos para a Filosofia Antiga, da época de Sócrates, Platão, entre outros, vemos que aquelas pessoas não tinham o nível de acesso à informação que temos hoje. É provável que um Platão, por exemplo, não tenha lido a mesma quantidade de textos que uma pessoa adulta em nosso tempo, visto que hoje, com o advento de tantas tecnologias da informação, estamos mergulhados em textos o tempo todo. Vivemos numa fartura de informações, no entanto os filósofos antigos como Platão, que viveu há 2400 anos, apesar de não terem o mesmo volume de informações, tinham um olhar tão profundo para a realidade, que podemos considerar as suas obras como sendo os alicerces e as colunas de sustentação de toda a nossa civilização ocidental. Por exemplo, as ideias de Prudência, Justiça, Estado, tal como conhecemos hoje tem suas raízes na obra “A República”, de Platão. Como se explica isso? Por que um povo como os gregos, com um acesso à informação bem menor do que todos nós, chega a um nível de Sabedoria tão mais elevado?

 

 

Quanto mais você buscar as tradições antigas, como o pitagorismo, o estoicismo, a tradição tibetana, hindu e egípcia, mais vai perceber que o acesso profundo à realidade não decorre exclusivamente do domínio da informação, mas está associado a um grau de despertar da Consciência, ou seja, o quanto algo profundo que você aprendeu se realiza na sua Vida, se manifesta na sua existência. 

 

Essa é a ideia genuína de educação, no sentido de “eduzir” ou tirar de dentro para fora. Trazer para a superfície da Vida a essência profunda que todos nós temos dentro. Platão, em sua obra, apresenta um esquema didático para percebermos esse movimento. Ele divide a realidade em dois mundos, o mundo das ideias e o mundo prático, ligado aos objetos, às coisas. Este mundo prático, objetivo, que está ao alcance dos nossos sentidos, é um reflexo daquele mundo das ideias, que é perfeito, imutável e eterno. A Consciência é a ponte entre esses dois mundos. Nesse sentido, despertar a Consciência é trazer para o mundo manifesto as ideias perfeitas. 

 

Vamos pensar em alguns exemplos desse movimento. Imagine que você é um estudioso do direito, então você domina muitas informações relacionadas a essa área do conhecimento, conhece bem a teoria da Justiça, é possível que conheça bem a história do pensamento jurídico nas mais diversas culturas, tem um bom conhecimento das teorias mais recentes, etc. Mas você só conhecerá a ideia de Justiça genuinamente quando, em alguma circunstância da Vida, tiver que viver profundamente essa ideia. 

 

 

Por exemplo, vamos supor que o domínio dessas informações lhe levou a ser investido em um cargo público elevado, e que em decorrência disso você tenha acesso ao dinheiro do Estado. Então, chega uma situação em que você tem a oportunidade de desviá-lo sem que ninguém perceba. Está sob o seu poder. Você pode subtrair, ninguém vai notar, aí você se sente tentado a fazê-lo, mas naquele momento conclui que isso é um ato de injustiça, pois aquele recurso está destinado ao interesse da sociedade. Desviá-lo seria ir de encontro ao que tanto estuda, que é o ideal de Justiça, e assim, opta por não fazê-lo. 

 

É nesse movimento de trazer à realidade aquilo que você tanto estuda, de plasmar na prática uma ideia profunda de Justiça, que acontece o que se chama de “Logos Platônico”, ou seja, quando a ideia casa com o acontecimento vivencial. Quando se vive essas ideias, a Consciência desperta e aí nasce o Verdadeiro conhecimento. Nasce um tipo de saber autêntico, uma marca da sua Alma. Dessa forma, você sabe, não porque leu em livros, nem porque ouviu alguém falar, mas porque fez uma síntese a partir de uma experiência. E essa visão, esse olhar, esse alcance, ninguém nunca vai conseguir tirar de você, e sempre que você expressá-la em palavras será extremamente impactante, porque essas palavras virão de uma região profunda do seu Ser.

 

Se conseguíssemos levar essa visão de conhecimento genuíno bem a sério, conseguiríamos inverter essa lógica atual de se buscar com tanta avidez volumosas informações, a fim de ter conhecimento. Ao invés disso, substituiríamos esse costume pela prática de viver intensamente as ideias, para se chegar a patamares elevados do saber. 

 

Esse é o melhor negócio para todos nós, pois se vivermos as ideias, em lugar de apenas nos instruirmos, passamos a ter alcances muito maiores. O dramaturgo inglês Shakespeare, através de seu misterioso personagem Hamlet, afirmou: “Oh! Deus. Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do Universo infinito!”. Ele estava falando disso, ou seja, nossos limites físicos podem ser tão diminutos quanto uma minúscula casca de noz, mas temos dentro uma Alma que é oceânica, vasta e infinita, só precisamos libertá-la. Se conseguirmos esse grau de libertação da Alma, o nosso Universo não tem limites.  

 

 

 

 

Para as tradições mais antigas da cultura humana, o conhecimento está associado à Vida Moral. Quanto mais se vive as ideias da Justiça, do Amor, da Beleza, do Sublime, mais se conhece o Grande Mistério que ordena a Natureza e todo o Universo. Para se viver essas ideias não precisamos deter tantos títulos, tantas informações ou falar todas as línguas do mundo. 

 

Na famosa carta para os coríntios, o apóstolo Paulo fala mais ou menos assim: ainda que eu falasse todas as línguas dos homens e dos anjos, ainda que tivesse o conhecimento (no sentido de ter informações) de todos os mistérios e todas as ciências, ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse Amor, nada disso me adiantaria. Ou seja, se eu não viver o Amor, se eu não eduzir, trazer para fora o Amor que existe no mais recôndito de mim, nada disso adianta.

 

Esse é o verdadeiro, genuíno e mais profundo conceito de conhecimento: é viver no mundo prático das ações, das tomadas de decisões, das relações cotidianas com os outros, as ideias perfeitas que residem dentro de nossa Alma profunda. Se queremos conhecimento, então devemos viver as ideias, praticar o Amor, o Perdão, a Generosidade, a Bondade, pois à medida que trazemos para o plano vivencial esses ideais, que até então só habitavam nossas mentes, despertamos a Consciência e o Saber Verdadeiro.

 

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