Amor Sobre a Sacada

November 3, 2020

 

Joshua Hyunwoo Jun e Kun Yu Ng são os diretores de um daqueles curtas-metragens que nos conquista por sua simplicidade e profundidade. Até parece que essas duas características andam apaixonadas, de tanto que aparecem juntas nas grandes histórias que nós contamos. “Amor Sobre a Sacada” tem um roteiro simples: um senhor se senta suavemente em sua sacada para observar a Torre Eiffel, por entre os tantos arranha-céus de Paris. O personagem havia planejado um dia tranquilo, previsível e rotineiro, mas seu sossego é ameaçado pelas demonstrações de afeto dos seus vizinhos. Apaixonados, eles trocam mimos a partir de suas próprias sacadas. O senhor está bem no meio deles, entre aquela troca de “tiros” de paixão e sentimentos.

 

 

 

 

Com um visual claramente inspirado em Friedrich Nietzsche, além do bigode, o senhor da sacada parece também carregar o mau humor e o pessimismo do filósofo alemão. Após algumas zangas e caretas, ele resolve fazer algo sobre aquela situação. Interpõe-se entre os dois e age para interromper a troca de ternurinhas. O que se vê depois, é o senhor tendo que lidar com as consequências de seus atos e sentindo a necessidade de intervir mais uma vez para mudar o curso dos acontecimentos. Na verdade, no fim das contas, isso tudo acaba mudando o curso da sua própria Vida.

 

 

A primeira cena do filme é emblemática e muito significativa. O senhor senta na sacada de seu apartamento… Prepara sua bebida quentinha… Mira a Torre Eiffel por entre os prédios daquela selva de pedras e se prepara para ter um dia calmo, tranquilo e descansado. Desde a primeira cena, o curta nos mostra quem ele é. Uma daquelas pessoas que não querem guerra com ninguém. Cujo maior desejo é passar despercebido e viver como mais um pacato cidadão da civilização. Pergunte a si mesmo, quantas pessoas você conhece que só desejam uma coisa: serem deixadas em paz?! Viver suas vidas na tranquilidade de quem não incomoda, nem é incomodado por ninguém. Não ter que sorrir educadamente para o outro no elevador. Não precisar dar bom dia para o motorista do ônibus. Não ter que dividir uma mesa com um estranho na hora do almoço (ok, considerando o novo normal, isso até que é recomendado). Talvez, você mesmo tenha sonhado com uma vida dessas. Bucólica, vivida numa casinha no campo, no máximo com seus amigos, seus discos e livros e nada mais... Que mal há nisso? Não é melhor viver sem incomodar ninguém? Afinal de contas, não ajuda quem não atrapalha? Há no mundo aqueles que, céticos, após profundas reflexões existenciais, decidem que não vale a pena interferir em nada. Que a melhor coisa é agir como Mersault, personagem de Albert Camus, no livro “O Estrangeiro”, que vive sem motivações aparentes. Assim, como o Universo parece ser indiferente a nossas minúsculas vidas, ele tem a indiferença como forma de ação na vida.

 

 

 

“Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez.” O Estrangeiro; Albert Camus.

Essa é uma reflexão muito interessante. Estamos o tempo todo tomando decisões. Afinal, na Natureza, os únicos que as podem fazer com algum grau de consciência somos nós, Seres Humanos. E como estamos todos interconectados, cada decisão nossa influencia incontáveis pessoas mundo afora. Então, talvez, essa tal indiferença seja simplesmente impossível. Se você acordou, já começa a imprimir alguma marca na Vida de alguém. Aliás, até dormindo você o faz. Dessa forma, se tocar as pessoas é inevitável, nossa preocupação não deveria ser refletir sobre que tipo de impressão deixamos na Vida das pessoas?

 

Sri Ram, filósofo indiano, fala em seu livro “O Interesse Humano”, sobre a necessidade urgente de nos interessarmos verdadeiramente uns pelos outros, sobre como um ponto de vista alheio pode nos mostrar uma das faces da Verdade que só aquela pessoa pode ver, e sobre tantos motores psicológicos que atrapalham nossa plenitude Humana, nossa Vida em Harmonia com a Natureza e o Universo. Ele também descreve alguns Valores necessários para uma Vida Humana mais feliz e natural. Um deles é a Tolerância. Essa Virtude passa pela capacidade de compreender o outro. De aceitar seu ponto de vista e entendê-lo enquanto ser que nasceu, cresceu e experimentou a Vida a partir de um determinado contexto. A Tolerância é nascida do Amor pela Humanidade e esse Amor só é possível se nos interessarmos pelo lado “Humano” de cada um.

 

Sem esse interesse, o outro passa a ser visto como aquele que nos impede de fazer o que queremos. Como disse Sartre, o outro passa a ser o “inferno”. Sem reconhecer a Beleza que há no outro, todos os pontos de vistas alheios ao nosso são insuportáveis. É necessário ter olhos para ver o outro como o resultado de uma trama cósmica absurdamente rica, com um sem números de sins, nãos, talvezes, choros, lágrimas, risos... Por isso, é necessário abrir-se para o diferente, conhecê-lo. Buscar sinceramente olhar a Vida pelo ângulo de lá. Sem essa atitude, seremos prisioneiros de nossa própria forma de ver o mundo eternamente. E como nos disse Abraham Maslow, para quem só tem um martelo, todo problema é prego.

 

No conflito com o diverso, temos a oportunidade de crescer. É na convivência que descobrimos mais sobre nós mesmos. Os outros não são o inferno, eles são o melhor espelho para avaliarmos nosso grau de expressão daquelas Virtudes que todos nós queremos ver no mundo. Você provavelmente é um daqueles Quixotes que querem um mundo mais terno, justo e Humano. Se for, é também provável que deseje que a maior quantidade possível de pessoas desenvolva a Paciência, por exemplo, como forma de lidar com as situações cotidianas. Se leu até aqui e não mudou de página, então, podemos deduzir que concordará conosco quando afirmarmos que a melhor forma de descobrirmos, se precisamos ou não crescer em Paciência, é convivendo com aquele colega chato do trabalho. Se não o aguentamos, está aí nossa oportunidade de desenvolver essa importante Virtude.

 

Onde mora o perigo? Um homem fechado em seu próprio mundinho, intolerante ao próximo, frequentemente reage de forma agressiva contra seus irmãos. No nosso curta-metragem, o senhor fica incomodado com a Felicidade alheia e resolve impactar a Vida de seus vizinhos de uma maneira, no mínimo, censurável. É triste afirmar, mas essa é uma cena comum hoje em dia. Em um mundo que se orgulha de proporcionar liberdade em um grau jamais visto pela Humanidade, algumas pessoas são constantemente impedidas de se expressar como são. Por viverem a Vida a partir de seus pontos de vistas, são insultadas, agredidas e mortas.

 

Que todos nos impactamos mutuamente com esses problemas, talvez nós já concordemos. O que cabe a cada um de nós é escolher como influenciaremos a Vida dos demais. Podemos fazer como os muros, interrompendo os encontros, criando obstáculos para essa gostosa e necessária convivência, que ao mesmo tempo é conflituosa e alegre. Ou podemos fazer como as pontes, comunicando uns com os outros, sendo elos de União, gerando Harmonia, Felicidade e Amor entre os Seres Humanos. O curta “Amor Sobre a Sacada” nos diz que podemos ser pontes exatamente do lugar em que nos encontramos. E sugere que, quando o fazemos, nos abrimos para que a magia da Vida aconteça, porque todo o impacto que geramos no mundo, volta até nós de alguma maneira. É difícil? Sim! Há um longo caminho a percorrer? Com certeza! A maioria de nós nem mesmo reflete sobre essas questões? Provavelmente! 

Azar! 

 

A esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista tem que continuar...

 

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