O Dilema das Redes - A Caverna de Nossa Era

October 28, 2020

 

Nunca se teve tanto acesso à informação quanto hoje em dia. Pela internet, nos comunicamos, nos entretemos, nos educamos e conhecemos melhor a nós mesmos e ao Universo. As famosas e incríveis histórias de Marco Polo, em suas viagens à China e Ásia Oriental, já não nos surpreendem tanto no século XXI quanto surpreendiam nossos antepassados. Hoje, acompanhamos descobertas espaciais a todo instante, com imagens de alta resolução em tempo real, nos colocando em pé de igualdade com Gagarin, Armstrong e outros desbravadores das fronteiras cósmicas. Esses astronautas são alguns exemplos dos inúmeros personagens históricos que participaram da pavimentação desse caminho de conhecimentos e descobertas que revelou diversos Mistérios acerca do Homem, do Universo e de tudo mais. Por outro lado, nós, na atualidade, já encontramos este caminho trilhado, sinalizado e pronto para ser usado. Basta fazer um movimento rápido com os dedos, e está tudo diante de nós, na palma de nossas mãos, sob nosso total controle. Pelo menos é nisso que acreditamos.

 

Não se pode negar o quão útil é toda a tecnologia a que temos acesso, principalmente a internet, que expande nossa liberdade de várias formas diferentes. Em nossas mãos, através de nossos smartphones, vivemos a ilusão de dominarmos nosso destino, nossos interesses, nossos sonhos, e nossa forma de contribuir para a sociedade. A economia nunca foi tão fluida, líquida, e nunca esteve tão próxima das mãos de pessoas comuns, ao invés dos governos. Pessoas em diferentes localidades podem fechar negócios em minutos, sem nunca terem se visto ou entrado em contato de alguma outra forma. Sem falar da educação, que se afasta lentamente de sua estrutura mais formal acadêmica, e se reconstrói através de cursos livres, tutoriais dinâmicos, ou simples orientações transmitidas por pessoas experientes que, se fosse em outras décadas, jamais se veriam na condição de professores. Tudo isso através das mais diversas plataformas de ensino, gratuitas ou pagas. Se essas últimas trezentas palavras não lhe provocaram sutilmente esse questionamento, que o façamos agora de maneira direta: Será que estamos prontos para lidar com tudo isso?

 

O documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix desde agosto desse ano, nos alerta sobre o custo que toda essa conectividade nos traz. Já adiantamos que, mesmo que a maioria dos serviços online sejam gratuitos, esse custo é incrivelmente alto. A obra entrevista diversos ex funcionários de alto escalão das principais empresas da área de inovação do vale do silício, região dos Estados Unidos conhecida por abrigar as gigantes da informática, tecnologia e afins. Sem poupar o espectador dos detalhes, esses executivos nos contam como o mercado da propaganda transformou outdoors nas ruas, anúncios na TV ou spots no rádio em pop-ups e postagens em nossos e-mails e redes sociais. E o principal de tudo, tais anúncios são incrivelmente alinhados com nossos interesses imediatos, e com nossos impulsos. 

 

Tratando principalmente das redes sociais, que são os serviços que nos tomam mais tempo nessa vida virtual, o documentário nos apresenta uma indústria que se sustenta através de um produto muito específico: os dados de seus usuários. Através de nossas ações em suas plataformas, seja uma curtida em um post, a leitura de um texto, o compartilhamento de uma foto, e tudo o mais que fazemos lá, é elaborado um perfil comportamental de cada usuário, tentando prever suas próximas ações, e assim apresentar anúncios mais propensos a serem aceitos por aquela pessoa. A princípio, parece algo bom, se considerarmos a evolução da propaganda pré e pós internet. Somos parte da economia, e precisamos consumir algumas coisas de nosso interesse, é claro. Se fora da internet somos expostos a uma série de anúncios que não nos interessam, como um adolescente que se depara com uma propaganda na TV sobre um novo tratamento para artrite, ou um idoso com um anúncio de cursos preparatórios para o ENEM, na internet, as coisas se invertem e a cada um é apresentado algo que está mais propenso a comprar. Esta nova forma de propaganda está tão comum nos dias atuais que, quando a pessoa se depara com um anúncio que foge muito dos seus temas de interesse, ela fica se perguntando sobre o porquê de aquilo ter aparecido para ela. Na verdade, nós não somos os clientes das redes sociais, nós somos os produtos que elas ofertam.

 

O algoritmo desenvolvido por cada empresa, como Google ou Facebook, que também podemos chamar de inteligência artificial, nos coloca numa biblioteca infinitamente maior que Alexandria jamais poderia ser, o que é ótimo, no entanto, dificulta a circulação por entre seus corredores. Essa inteligência nos fornece um mapa, baseado em um perfil que o próprio algoritmo define, e nos incentiva a desbravar tudo que tivermos chance, contanto que esteja contido naquele prospecto, e isso é péssimo. Por isso o usuário acaba recebendo as notícias sempre das mesmas fontes, visualiza posts e vídeos sempre do mesmo tipo e acaba recebendo informações pouco diversas. Em outras palavras, somos incentivados a ser cada vez mais o que já somos, a pensar do jeito que já pensamos, e fazer o que já fazemos, com o agravante de que quanto mais isso acontece, nossa resposta natural é acreditar mais profundamente que estamos certos, pois ficamos com a impressão de que todo mundo pensa do mesmo jeito. Se achamos que existem conspirações de grupos mal intencionados, a fim de adoecer as pessoas, por exemplo, somos apresentados, em frequência cada vez maior, a sites, artigos ou grupos que reforçam essas ideias. Além de nos aprofundarmos mais em nossos abismos pessoais, somos negados a oportunidade de confrontar nossas ideias com pensamentos diferentes, enriquecedores, e construtivos. Nos vemos presos num ciclo vicioso onde nosso egocentrismo é alimentado, somos “protegidos” da pluralidade de pensamento e a polarização de ideias acaba nos afastando cada vez mais daquelas pessoas cujas opiniões diferem das nossas. Por isso, nos últimos anos, temos visto até mesmo pais e filhos brigando de forma irreconciliável por causa de crenças políticas, religiosas ou de qualquer outro tipo. Apesar de dormirem fisicamente sob o mesmo teto, cada um vive virtualmente em bolhas completamente separadas. 

 

Esse problema, no entanto, não é nenhuma novidade. Se estamos falando de sombras projetadas diante de nós, nos fazendo acreditar em coisas que apenas parecem contornos da verdade, não podemos deixar de lembrar que o filósofo grego, Platão, nos alerta em seu Mito da Caverna, que, mesmo que acompanhemos as ilusões de bom grado, aceitando o que nos é mostrado, estamos presos por correntes nessa condição de espectador. Somos prisioneiros dessas ilusões, e não seus mestres. Assim como no mito, se conseguirmos nos libertar dessas amarras, veremos que tudo não passa de uma triste encenação. 

 

No documentário, fica claro que a intenção das redes sociais em nos manter conectados todo o tempo possível, visa apresentar para nós o máximo possível de propaganda disponível, e assim conseguir o que todas as outras empresas, de qualquer segmento buscam, cada vez mais lucro. A verdadeira intenção não tem a ver com vitimizar a Humanidade, ou nos “escravizar” eletronicamente, porém, a falta de sensibilidade ética daqueles que conduzem essas corporações nos coloca em situação de grande risco nesse cenário, principalmente daqueles que são mais vulneráveis, as crianças e adolescentes.

 

“O Dilema das Redes” alerta sobre a fragilidade dos jovens diante dessas tecnologias que existem desde que eles nasceram, e por isso nem conseguem se imaginar sem elas. Existe um post que roda na internet de uma mãe comentando que os filhos dela pensam que ela está brincando quando diz que é mais velha que o Google. É cômico, de fato, mas isso nos faz refletir que, essas crianças são das primeiras gerações que passaram praticamente toda a vida conectadas a internet. Ainda veremos como serão esses adultos daqui a algumas décadas.

 

Atualmente, experiências importantes da Vida, como o primeiro namoro, falar em público ou cantar juntos no ônibus de excursão, já estão acontecendo primeiro no mundo virtual, ou até sendo suprimidas completamente pela falta de contato físico. Não são apenas os corpos que se afastam por conta das redes sociais, mas, os corações se distanciam. Não se sentem obrigados a conviver com quem não gostam, ou aceitar opiniões com as quais não concordam. Fazendo um paralelo com o corpo físico, se o indivíduo nunca enfrenta nenhum tipo de resistência, sua musculatura se tornará frágil e sua saúde debilitada. Sendo assim, como fica uma psique que nunca encontrou ideias contraditórias e nunca precisou enfrentar decepções ou frustrações?

 

Apesar disso tudo, é possível resistir. Sair dessa caverna é, talvez, a mais importante missão que fomos incumbidos nos últimos séculos. Não é fácil sair de nossa zona de conforto. Criticar a nós mesmos em nossos comportamentos não é auto depreciação, é uma necessidade de se auto avaliar, e se permitir retomar o controle de nossa consciência. Nenhum de nós, em plena atenção, aceitaria recusar conhecer a Verdade, para apenas conviver com ilusões criadas para nos enfraquecer. 

 

Viemos de séculos de autoridade exercida pelo poder e pela violência, em que negligenciamos o direito ao conhecimento, à liberdade de expressão, e, quando começamos a nos libertar finalmente, quando começam a ruir as instituições mais segregadoras, nos submetemos a outro tipo de cárcere, mas dessa vez de maneira voluntária. Em uma aldeia global, termo que se usou no início dos anos dois mil, para indicar que já havíamos iniciado o processo de transformação de culturas locais em mundiais, acreditamos que nos tornaríamos, por fim, uma só Humanidade, nos conectando aos distantes em tempo real, e confraternizando a oportunidade de sermos Humanos. Entretanto, quando nos demos conta, percebemos que nos encontramos ainda mais divididos, percebemos que não se pode viver o consenso perfeito. Justamente por causa disso, precisamos aprender como conviver em Harmonia, ou pelo menos tolerarmos uns aos outros, mesmo na ausência de consenso. 

 

Ouvir outras opiniões, permitir a nós mesmos o erro, abraçar a Humildade ao invés da prepotência, perguntar a si mesmo “e, se eu não estiver certo?”... Nada disso é fraqueza. Muito pelo contrário, são a base para construção de Indivíduos melhores, mais Verdadeiros consigo e com os outros, com aqueles com quem nos importamos, e também com os que sequer conhecemos. Essa é a chance de erguermos uma sociedade fundamentada na Bondade, no Respeito, na Justiça e na Harmonia. Cultivemos o que de melhor pode haver no Ser Humano, seja através do acolhimento dos mais frágeis, do cultivo da inteligência emocional, ou da pacificação dos conflitos, para que possamos ser a semente de Bondade que o Mundo tanto precisa ver florescer.

 

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