O Conde de Monte Cristo - Uma Reflexão Sobre Justiça, Vingança e a Alma Humana

October 22, 2020

 

 

Imagine que hoje é o dia em que você vai se casar, você está ensaiando a cerimônia na Igreja quando é surpreendido por policiais que lhe dão voz de prisão. Você não sabe o que está acontecendo, tem consciência de que não fez nada de errado, mas mesmo sob seus intensos protestos, eles estão lhe conduzindo à autoridade policial. Depois de ser ouvido, o chefe de polícia informa que você está sendo acusado de conspiração e terá que passar pelo menos aquela noite na prisão, até que tudo seja esclarecido no dia seguinte. Não adianta protestar, espernear, gritar, nada importa, você é conduzido para uma cela e trancado lá. Passa a noite em claro, na maior angústia, no desespero de que amanheça logo e tudo seja esclarecido, mas no dia seguinte nada acontece e no terceiro dia também nada acontece e nada acontecerá nos dez anos seguintes.

 

 

 

 

Esse é o começo da história de Edmond Dantès, personagem de um dos romances mais intrigantes do mundo, “O Conde de Monte Cristo”, escrito entre 1844 e 1846 por Alexandre Dumas. Com diversas adaptações para o cinema e para o teatro, a trama se passa no seio da alta sociedade francesa e envolve reflexões que vão desde a filosofia até o direito e a ética, além de agregar muitas informações históricas relativas ao período pós napoleônico. 

 

Cheia de conspirações, de encontros e desencontros, a narrativa é cativante e envolvente, você não consegue largar o livro, tudo gira em torno da vida do jovem francês que, no auge de sua realização pessoal, tinha acabado de se tornar capitão de um navio e estava prestes a se casar com uma das mulheres mais lindas e mais ricas da sociedade. Entretanto, sua liberdade é interrompida por uma armação levada a cabo por desafetos que competiam contra ele: um tenente que tinha interesses na sua futura esposa; um imediato que tinha a ambição de ser o capitão em seu lugar e um jovem ao qual Dantès outrora lhe havia feito prisioneiro em seu navio. Eles se reúnem em uma taverna e organizam uma armadilha a fim de que o jovem capitão seja suspeito de uma conspiração napoleônica contra o Rei. Isso o leva a uma prisão de segurança máxima, onde ficará sem contato com ninguém por muitos anos.

 

 

 

 

No décimo ano de prisão, ele escuta batidas por trás da parede, era outro prisioneiro político, o abade Faria, que cavava um túnel para fugir. Ele consegue abrir uma fenda em sua cela e encontrar o túnel do abade com quem cria uma amizade muito rica, pois o religioso era um homem sábio e lhe ensina filosofia, matemática e línguas antigas, ao passo que cavam o túnel juntos para a fuga. Infelizmente, o túnel nunca chegou a ser concluído, pois o abade morre durante o trabalho. Em seus últimos momentos de Vida, o sacerdote entrega ao parceiro um mapa que tem um tesouro escondido. Então, Dantès consegue se passar pelo cadáver do abade envolto em sua túnica de morte, e é lançado no rio, conseguindo se libertar logo em seguida.

 

Livre da prisão, localiza o tesouro, se torna um dos homens mais ricos da França e passa  a ser conhecido como o Conde de Monte Cristo. Agora, com uma nova identidade e com muito poder nas mãos, ele persegue e destrói cada um dos que armaram contra ele. O imediato do navio que ambicionava seu cargo de comandante havia se tornado um barão dono de um banco, Dantès trama contra ele até levá-lo à falência e ao suicídio. Contra o chefe de polícia, Dantès consegue envolvê-lo em uma trama tão engenhosa que o leva à loucura. O tenente havia se tornado general e conseguira finalmente casar-se com a ex noiva de Dantès, mas termina preso, louco e sem esposa. Enfim, Dantès consegue sentir o prazer da vingança que tanto desejava há mais de 10 anos, porém não consegue recuperar o Amor de sua esposa, pois ele já não era mais o mesmo rapaz de antigamente. O ódio o havia transmutado em um vingador. Tornara-se alguém destrutivo, esvaziado de Amor e de compaixão. Quanto mais acumulava conquistas contra seus inimigos, mas esvaziava sua Alma. 

 

 

 

Nas entrelinhas dessa história, a pergunta que está sendo provocada é: o que é fazer Justiça, de fato? Nós temos uma tendência em confundir Justiça com vingança. Se alguém nos faz um mal muito grande, imperdoável, tendemos a achar que a única forma de fazer Justiça é devolvê-lo na mesma intensidade. Mas isso é um erro. Justiça tem mais a ver com equilíbrio, ponderação e com aprendizado do que com ódio, vingança e destruição. Houve uma época em que o comum era “fazer justiça” através de penas cruéis, como empalamento, enforcamento, golpes de machado, etc. Inclusive, o surgimento da guilhotina se deu anos antes deste romance ser escrito, na mesma região da França, e surgiu como um método de diminuição da dor, já que as execuções eram muito lentas e cruéis. Com o tempo, a civilização ocidental foi revendo esse jeito de aplicar penalidades, pois o resultado era muito pior. Em vez de fazermos Justiça, estávamos transformando o mundo em um mar de sangue e crueldade.

 

 

 

A vingança esvazia a Alma Humana à medida que nos ilude com uma sensação errada de “dar o troco”. O vingador vai se tornando alguém igual, ou até mesmo pior, àquele que lhe causou o mal. Esse movimento vai se tornando bem visível na obra “O Conde de Monte Cristo”, chegando a um ponto em que Edmond Dantès vai se tornando alguém pior e mais cruel do que aqueles que inicialmente tramaram contra ele. E quando ele tenta recuperar o Amor da sua vida, ela não o quer mais, pois ele já não é mais aquele jovem puro do começo da história. Na interpretação simbólica dos mitos, geralmente a mulher amada é símbolo da Alma, ou seja, perdê-la é o mesmo que perder a própria Alma, e recuperá-la é recuperar a própria Alma. Nessa história, infelizmente o personagem perde a sua Alma. 

 

 

 

 

Vivemos uma conjuntura hoje de muito ódio em nossa civilização, ódio político, religioso, etnico, etc. Isso é muito perigoso, porque o ódio esvazia o que há de melhor dentro de nós mesmos, ele nos leva a perder a nossa Alma na ilusão de que, aquilo que está sendo feito, irá nos trazer alguma paz interna. Nunca a mensagem “ama ao próximo como a ti mesmo” se tornou tão necessária. Precisamos refletir, com urgência, sobre o quanto estamos nos tornando hostis e odiosos uns com os outros, e tentar encontrar o caminho de volta para o Amor, para a Compreensão, para o Perdão e para a Paz Interior.

 

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