Dioniso - Deus Dentro de Nós

October 20, 2020

 

 

A Mitologia Grega carrega em si muitos Simbolismos e Mistérios. Repleta de histórias, de batalhas, mortes e renascimentos, os mitos gregos podem, por vezes, nos parecer confusos. Entretanto, por trás da aparente irracionalidade atribuída a essas histórias “fantasiosas” há um mundo Simbólico e Profundo nos esperando. O Mito de Dioniso é, certamente, um exemplo claro disso.

 

 

 

 

 

Dioniso é representado como um jovem de extrema Beleza, carregando uvas e uma taça em suas mãos. Ele está associado ao vinho, a alegria e, eventualmente, aos excessos. Geralmente, quando lembramos desse Deus, o associamos a festas e a bebedeira. Na Roma Antiga, seu nome foi relacionado ao Deus Baco, e as mulheres (o culto era reservado apenas a elas) que praticavam seu culto eram chamadas de bacantes. É daí também que deriva a palavra “bacanal”, porém nas suas origens nada tinha a ver com orgias, como se entende hoje em dia. Visto tais questões, geralmente associamos Dioniso e Baco a relações sexuais e a promiscuidade.

 

Mas o que existe por trás desse aspecto mais superficial? 

 

Vamos conhecer, primeiramente, o Mito: Tudo começa com Perséfone e Zeus. O Deus dos Deuses (Zeus), sob a aparência de uma serpente, teria engravidado Perséfone, antes que ela fosse raptada por Hades. Dessa relação nasceria Zagreu, um ser completamente Divino (uma vez que foi concebido por duas divindades). Entretanto, Hera, esposa de Zeus, não aceitou o nascimento da criança e ordenou aos titãs que ela fosse morta. Os titãs despedaçaram então o pequeno Zagreu e comeram todas as suas partes, exceto o coração.

 

Atena, a Deusa da Sabedoria, levou o coração de Zagreu até seu pai. Zeus, apiedado da situação do filho, pegou o coração do infante e dele fez uma poção. Em seguida foi até o mundo dos homens e pediu a Sêmele, uma mortal, que a tomasse. Desse modo, ela engravidou de Zeus e o resultado dessa união foi Dioniso. 

 

 

 

 

Mas nem tudo são flores. Durante a gestação, Sêmele pediu a Zeus que se apresentasse na sua verdadeira forma para ela, sem véus. Zeus, coagido através de um juramento, atendeu o pedido da mortal. A imagem verdadeira do Deus acabou por transformar Sêmele em cinzas, matando-a. O pequeno Dioniso, ainda na gestação, iria morrer. Zeus, entretanto, não admitiria perder outro filho e assim, implantou Dioniso em sua coxa, carregando-o por mais alguns meses até sua gestação. Dioniso, portanto, nasce da coxa de Zeus.

 

Antes de continuarmos o Mito, já temos elementos suficientes para compreender um pouco do simbolismo de Dioniso. O primeiro deles é compreender sua natureza: Dioniso nasce de Sêmele, uma humana. Deveria, portanto, ser considerado um SemiDeus. Mas sua essência advém de Zagreu, o que lhe concerne uma parte Divina. Dioniso mostra-se então com um aspecto mortal, terrestre, temporal, e em contrapartida, um aspecto Profundo, Divino, Atemporal. Ele precisa passar por provas para tornar-se um ser completamente Divino, mas já carrega em si a semente da Divindade. Não por acaso, ele será associado, na Grécia e na Roma Antiga, a cerimônias espirituais iniciáticas, por esse caráter de transcendência. 

Outro Símbolo importante é o de Atena, que representa a Sabedoria: ela que vai até Zeus com o coração do infante Zagreu. Nesse caso, o coração representa o que há de Divino dentro do Ser Humano. Os gregos acreditavam que a Sabedoria era a maneira de ligar-se ao que é mais elevado em nós. Ser sábio era reconhecer Deus dentro de si, no outro e na Natureza. Aprender a ver o Sagrado na Vida. Nada mais simbólico do que ser Atena que conduza essa essência até Zeus. O Deus dos Deuses, então, transmite esse elemento Divino para dentro de Sêmele, como uma semente.

 

 

 

 

Quando Sêmele pede a Zeus para mostrar-se por inteiro, ela se transforma em pó ao ficar diante da verdadeira forma do deus. Simbolicamente, podemos compreender que nosso corpo é, antes de tudo, mortal. Não temos capacidade de reconhecer o Divino em sua mais profunda essência, pois não estamos preparados para isso. Tal passagem assemelha-se ao Mito hindu do Bhagavad Gita, em que o herói Arjuna pede a Krishna para revelar-se por completo. Arjuna, tal qual Sêmele, não resiste e recua de seu desejo. O que isso pode nos ensinar? Existem coisas que não compreenderemos, pois nossa condição Humana não permite. Em última instância, a Vida e a Divindade continuarão sempre sendo um Mistério. Desejamos fortemente conhecer tudo, entender como todos os processos da Natureza acontecem, mas não temos a força suficiente para entendê-los. Talvez a resposta para esse problema esteja no próprio Mito de Dioniso: só poderemos nos elevar a uma condição Divina se trilharmos um caminho em direção aos Mistérios.

 

 

 

Dioniso é um Deus sempre associado à Felicidade, mas em um sentido de “Entusiasmo”. Quando entendemos a origem dessa palavra (in + theos, “dentro” + “Deus”), podemos entender que isso se refere à Luz, ao Amor e à Beleza que todo Ser Humano possui dentro de si, ou seja, é Deus dentro de nós, por isso Entusiasmo. A sua relação com o vinho também vem daí, pois nas cerimônias dessas antigas tradições, ao beber o vinho, o calor que se sentia dentro do corpo deveria lembrar a pessoa da Divindade que habita dentro dela. Quando analisamos o Mito, Dioniso sempre é a parte interna: o Coração, a poção que foi bebida, o feto na barriga da mãe e, por fim, a criança dentro da coxa de Zeus, e então percebemos que a ideia de “In Theos” faz todo sentido.


 

 

 

Tanto Dioniso quanto Atena são Deuses que nascem diretamente de Zeus. Dioniso da coxa e Atena da cabeça, e ela já nasce adulta e armada, pronta para o combate, pois a Sabedoria é uma Virtude prática.  Talvez este mito esteja nos dizendo que Dioniso representa uma etapa inferior a Atena, ele representa um estado de consciência que ainda precisa trilhar um caminho, até elevar-se ao topo, à cabeça de Zeus, à Sabedoria. 

 

Em algumas versões do mito, Dioniso é apresentado como um Deus errante, que é provado até conseguir seu lugar no Olimpo. Isso reforça para nós a ideia de que esse Entusiasmo (Dioniso) deve ser trabalhado e colocado em ação, para que assim se torne Sabedoria (Atena).

 

Só por esses elementos, já podemos perceber que Dioniso não é apenas um Deus fanfarrão, que embriaga os Homens e diverte-se com a bebedeira de seus seguidores. Infelizmente os estereótipos que o circundam não fazem jus aos seus símbolos. Tal qual acontece conosco, quando nos recusamos a compreender mais profundamente a nós mesmos, tendemos a ficar na superficialidade objetiva do mundo. Mais uma vez,  Dioniso e seu duplo aspecto nos revela uma faceta simbólica do Ser Humano. Que possamos viver o Mito e buscar ascender ao Olimpo, encontrando dentro de nós o Coração Divino que nos liga aos Céus.

 

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