Pieter Bruegel, o Velho

October 15, 2020

 

 

Imagine colocar mais de cem provérbios em um único quadro. E fazer com que todos participem de uma mesma paisagem, dando rosto para tantas expressões diferentes como “não chorar o leite derramado”, ou “amarrar o diabo no travesseiro”. Seria necessária a habilidade de um artista muito talentoso, não acham? Mas os Países Baixos, do século XV, tinha vários deles. E Pieter Bruegel, o Velho, provavelmente foi o maior deles. 

 

 

A Europa experimentou uma série de mudanças entre meados do Séc XIV e o fim do século XVI, num movimento cultural muito conhecido: o Renascimento. Gerado na Itália, esse movimento espalhou-se e transformou a forma de ver o mundo. Foi um período turbulento e mágico em que a mentalidade de um povo passou por transformações enormes, inaugurando a Idade Moderna. A burguesia avançou enquanto classe política e econômica; a reforma protestante desafiou a hegemonia católica; e o Renascimento trouxe novamente à vida diversas ideias gregas e romanas, que estavam há mil anos adormecidas. De todas as faces desse movimento, a Arte é constantemente lembrada por causa de grandes nomes italianos: Da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo, etc... De fato, a terra napolitana foi o centro gerador e formador de artistas, mas a força cultural do Renascimento se espalhou por todo o continente e alcançou até os Países Baixos, uma das regiões mais ricas e prósperas. 

 

Os Países Baixos (Nederland), também conhecido como Holanda, entrou no século XV sob domínio do maior Império do mundo à época, a Espanha. Razões econômicas e religiosas, que estavam muito turbulentas naquele período, levaram a uma série de revoltas e guerras que terminaram por gerar um país independente. Todo esse contexto foi o pano de fundo para o aparecimento de grandes pintores neerlandeses. É nesse mundo que nasce Pieter Bruegel, o Velho. 

 

 

Ele foi muito famoso por suas pinturas de paisagens a óleo. Algumas de suas obras mais famosas são: “Paisagem com a Queda de Ícaro” (1558), em que retrata a paisagem do mar Icário, onde o famoso filho de Dédalo se afoga; “Caçadores na Neve” (1565), que frequentemente é tomado como registro da força dos invernos na pequena era glacial (período de resfriamento da Terra, em que até os canais holandeses congelaram); “Torre de Babel” (1563), com inspiração no mito bíblico em que pode-se ver uma torre com arquitetura que lembra muito o Coliseu romano. É impossível não se encantar com a riqueza de detalhes de suas obras. Dentre as suas influências, Hieronymus Bosch era certamente uma grande inspiração para o artista. Como ele, Bruegel também se apresentou como um observador atento e um grande colorista. Os dois rechearam seus trabalhos com criaturas fantásticas e imaginárias. Considerando as polêmicas de nossos tempos, alguns de seus quadros envergonhariam a muitos. “O Jardim das Delícias de Bosch”, é um exemplo claro. Em Bruegel, essa influência pode ser vista em sua obra de 1562, “A Queda dos Anjos Rebeldes”. Nela, o pintor retrata o resultado da conhecida revolta liderada por Lúcifer. É de se destacar a representação da atuação do Arcanjo Miguel, que tranquilamente pisa a barriga da besta do Apocalipse. Esta é uma obra interessante, uma vez que a expulsão dos anjos rebeldes é descrita no livro de Gênese. Assim, numa mesma obra tem-se Gênese e Apocalipse, o início e o fim dos tempos, como resultado da mesma e velha luta da luz contra as trevas. 

 

Pieter também era conhecido como “o camponês” por seu costume de vestir-se como tal. Há quem afirme, que ele assim fazia para passar despercebido e conseguir se misturar ao povo comum. Dessa forma, poderia ir a casamentos e demais festividades à procura de inspiração para seus quadros. E foi representando uma dessas paisagens que ele se tornou motivo de nosso texto de hoje. 

 

Nosso mestre paisagista conseguiu representar tantos ditados de seu povo, que seu quadro “Provérbios Neerlandeses” é uma riquíssima obra de arte. Serve-nos como registro etnográfico de seu povo, representando os costumes daquela época. Serve-nos também como uma aula de composição e tantas outras técnicas artísticas. Serve-nos, por fim, como uma boa fonte de entretenimento e diversão. Desafiamos vocês a clicar na imagem abaixo, dar zoom e tentar adivinhar alguns ditados. No início do texto, já entregamos alguns.  

 

 

A obra também é conhecida como “O Manto Azul”, ou “A Loucura do Mundo”. A intenção de traduzir literalmente os provérbios não tinha como objetivo tão somente entreter a plateia. Como o próprio nome diz, nosso artista também queria catalogar a loucura humana. No canto superior esquerdo pode-se ver (ou ler) que “o mundo está de cabeça para baixo”, enquanto o “tolo que consegue as melhores cartas”, “defeca sobre o mundo”. Essa composição poderia indicar que, para o artista, as coisas estão fora de lugar, e aqueles que não estão nem aí para isso, são os que mais têm sorte na Vida. Qualquer semelhança com nosso tempo pode não ser mera coincidência... No canto superior esquerdo, podemos ver que, enquanto uns repetem ações tolas “atirando uma segunda flecha para achar a primeira”, outros têm “o teto coberto de tortas” (são muito ricos). No centro, abaixo, mais uma composição interessante. Aqueles que não agiram antes do desastre (“só enchem o poço depois que o bezerro já se afogou”) e não “tomam cuidado para não deixar o cão preto vir no meio” (se precaver para que as coisas não dêem errado), poderão ser “vestidos com o manto azul” (traídos por suas esposas). 

 

 

Como podemos ver, a genialidade desse mestre neerlandês é incrível. Você pode fazer diversas leituras desta grande obra que denuncia, registra e satiriza nossos atos mais comuns e vulgares. Ao mostrar um pouco da loucura do nosso mundo, essa obra pode nos permitir algumas boas reflexões. Nós vivemos num mundo de loucuras. E nesse mundo, será que somos mais loucos, ou mais médicos? Afinal, de médico e de louco todo mundo tem um pouco, não? E se não fazemos parte da solução, somos parte do problema. 

 

O mais importante é se lembrar que o mundo pode parecer louco, mas “excrementos de cavalos não são figos”, ou as aparências enganam (canto superior direito do quadro). E embora muitos de nós sejamos “cegos guiados por outros cegos” (canto superior direito), “a viagem não acaba enquanto ainda se pode ver a igreja e o campanário”, ou seja, ainda necessitamos perseverar, pois esta louca e bela jornada que é a experiência Humana ainda tem muito a nos ensinar. 

 

Fantástico não é? No vídeo abaixo você pode se inspirar com mais provérbios neerlandeses. Alguns deles chegaram até nós, mas outros são totalmente estranhos. Vale a pena conferir e compartilhar com aquele amigo que adora um conteúdo inspirador. 

 

 

 

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