The Wishgranter: Um Novo Jeito de Pensar Sobre Desejo e Amor

August 18, 2020

 

 

“The Wishgranter” ou “o desejo” é um curta produzido em 2016 nos Estados Unidos que dramatiza uma tradição muito antiga. Dizem que há muitos séculos, na região da Europa, numa época em que era difícil se encontrar água potável, quando um forasteiro se deparava com uma fonte, ficava tão agradecido aos Deuses que atirava uma moeda na água como um símbolo de gratidão por ter saciado a sua sede. Esse costume ao longo dos séculos foi se tornando tão forte, que foi se reinventando de acordo com os novos tempos. Com a modernidade, essa tradição foi agregando novas nuances. Hoje, todas as fontes de água famosas do mundo geralmente ficam cheias de moedas no fundo, inclusive uma das fontes mais famosas fica na Itália, a Fontana de Trevi, que aparece em vários filmes clássicos como “La Dolce Vita”, “A Princesa e o Plebeu” e “A Fonte dos Desejos”. Acredita-se que, se você jogar uma moeda na Fontana de Trevi, significa que vai voltar à Roma, se jogar duas, vai se apaixonar por um romano ou por uma romana e se jogar três, vai se casar com um romano ou com uma romana. Com isso, dizem que quase três mil euros são lançados todos os dias na fonte. É claro que há uma organização que retira diariamente essas moedas e doa aos pobres.

 

 

Todo esse imaginário em torno das fonte serviu de inspiração para a criação do curta “The Wishgranter”, em que uma fonte dos desejos é instalada em uma área urbana dos Estados Unidos e as pessoas jogam moedas e desejam algo. As moedas mecanicamente chegam até um elfo que está já entediado de tanto realizar os mesmos desejos, geralmente relacionados a riquezas e bens materiais. Até que um jovem e uma jovem lançam suas moedas ao mesmo tempo na fonte, e seus desejos estão relacionados ao Amor. Mas as moedas engasgam no canal, e o elfo é obrigado a subir até à superfície para, com muitos desencontros, atender aos pedidos de Amor.

Assista o vídeo completo: 

 

 

O fundo musical, a expressão facial dos personagens e a dramatização em torno do romance nos conduzem a um clima de muita ternura e nos leva a uma reflexão entre desejo e Amor. O primeiro personagem que lança a moeda e que deseja dinheiro parece não se saciar, está sempre fazendo o mesmo pedido e vai acumulando riquezas até que, em uma das cenas, já no final do curta, ele vai passando com os braços cheios de sacos de dinheiro e confunde o elfo, ser mítico, com um mendigo, e apesar de estar com tanto dinheiro oferece apenas uma moeda a ele. Esse personagem contrasta com a sinceridade do casal que se dirige à fonte. Eles não estão interessados em lucro, eles buscam o Amor.

 

Essa dualidade entre desejo e Amor existe dentro de todos nós. A diferença entre um e outro é que o desejo não dura muito tempo, esgota-se logo que é atendido, mas rapidamente ressurge em novos interesses, porque nunca se sacia. Quem vive sob a égide do desejo nunca está satisfeito, está sempre em busca de mais. E isso é muito perigoso, porque a tendência é a pessoa nunca se sentir completa e realizada, e a insatisfação crônica pode levar a dores psíquicas muito fortes. Já o Amor é totalmente diferente, não está associado ao prazer sensível, ou ao prazer ligado aos sentidos, está relacionado à Alma. Uma dica prática para diferenciar Amor e desejo é observar o que mais está sendo satisfeito em você. Os sentidos, como visão, paladar, olfato, audição e tato, ou a Alma, que está mais associada às emoções refinadas e à mente? Uma relação, por exemplo, exclusivamente baseada na beleza corporal está satisfazendo apenas a visão. Mas a forma corpórea é muito transitória. Todos nós estamos degenerando fisicamente, o tempo passa e o desgaste é inevitável. Se a motivação da relação é apenas o corpo físico, a tendência é essa relação exaurir em um tempo relativamente curto. Mas se o que motiva a relação tem a ver com as ideias, se a pessoa com quem você se relaciona lhe encanta pelo jeito como vê o mundo, pelos seus sonhos, pela forma como lida com a Arte, a Ciência, a Religião, a Política, a Filosofia, etc, então, nesse caso, essa relação dá sinais de ser muito duradoura, porque a satisfação está relacionada à Alma.

 

 

Os gregos traduziram essa reflexão em um mito de um casal que se apaixona: Eros e Psiquê. Eles se casam, porém Eros, que era um Deus muito belo, não queria que Psiquê visse o seu rosto, para que não se apaixonasse apenas pela sua aparência, pois ele queria que ela se apaixonasse pelo que ele realmente era. Mas, pressionada pelas irmãs, Psiquê dá um jeito de ver o rosto do marido, então ela fica extasiada com a sua aparência. Desapontado, Eros a abandona e volta a morar no Olimpo, com os outros Deuses. Não conseguindo satisfazer seu desejo por Eros, Psique entra em um estado depressivo agudo e fica às portas da morte. Eros então, orientado por Zeus, atira uma flecha mágica em Psiquê e a transforma em imortal. Somente dessa forma, eles conseguem realizar o Amor. Simbolicamente, podemos entender que o verdadeiro Amor é a união das nossas partes imortais, ou seja, de nossas Almas.

 

O curta “The Wishgranter” é um jeito contemporâneo de falar das mesmas coisas que os gregos falavam através do mito de Eros e Psiquê. Por que será que a sociedade Humana está sempre encontrando uma narrativa para falar dessa dualidade? A resposta é que há uma necessidade vital em torno dessa questão. É um tema que todos as culturas, de todas as épocas se preocuparam. Para o Budismo, por exemplo, o desejo é a raiz profunda de todas as dores. Nos escritos de Buda, fala-se o tempo todo em controlar os desejos, pois sem esse domínio não há Felicidade possível. 

 

 

A Humanidade precisa hoje desenvolver acessos aos prazeres espirituais, em contraposição aos prazeres ligados aos sentidos, pois estes são insaciáveis, não dão respostas ao Espírito Humano e nos tornam desgraçadamente insatisfeitos, angustiados e desequilibrados. Um jeito de conseguir construir um poder sobre os desejos é descobrindo a fonte dos prazeres inteligíveis, ou seja, prazeres relacionados à Alma, às Ideias, ao Eterno. 

 

Não podemos negar que os prazeres sensíveis são agradáveis, isso seria hipocrisia, e tampouco queremos dizer que eles devem acabar. O principal conselho é que busquemos, também, prazeres mais profundos, como o prazer de se conectar conscientemente a um bom livro, o prazer de estar diante de uma obra de arte que expressa Beleza, o prazer de assistir a um pôr do sol diante da vastidão do oceano, o prazer de servir às outras pessoas, ou mesmo o prazer do Amor verdadeiro. Esses prazeres atravessam os portais da morte e satisfazem uma busca profunda que todos temos dentro de nós, por isso devemos cultivá-los e dar prioridade a eles sobre os desejos superficiais e efêmeros. Por que viver na superfície da Vida se nos é dada a oportunidade de ir até o profundo da existência? Então, busquemos o melhor e mais duradouro que a Vida tem a nos oferecer.

 

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