O Mundo das Ideias e a Origem das Cores

July 28, 2020

 

 

Você sabe por que em dias quentes é preferível usar roupas claras? E por que em dias frios um casaco preto aquece melhor? Como surgem as cores? Como nossos olhos as percebem? O que há de filosófico na relação do Ser Humano com as cores?  Vamos refletir um pouco sobre essas questões!

 

 

O filósofo Platão, ao contar o Mito da Caverna no livro “A República”, utiliza os símbolos da luz e das sombras para retratar o caminho de libertação Humana, partindo de um mundo das ilusões, representado pelo interior escuro da caverna, até a Realidade, representada pelo mundo iluminado pelos raios do Sol. Sendo Platão um dos pensadores mais influentes da história, isso já nos dá uma boa noção de como a luz, e por consequência as cores, são símbolos importantes no nosso imaginário.

 

Temos duas formas de assimilar o mundo: no piloto automático ou no modo filosófico. No automático, acolhemos tudo que nos chega de imediato, sem perguntar o porquê, sem querer entender o ponto de partida, como acontece, para que acontece e por que acontece. Mas um Espírito Humano, comprometido com o seu papel no esquema da natureza, está sempre fazendo perguntas que um animal, uma planta ou uma pedra são incapazes de fazer. É com esse espírito que provocamos neste breve texto uma reflexão sobre a origem das cores e sua percepção pelo olho Humano.

 

Quando olhamos para um objeto, identificamos de imediato suas cores em uma velocidade quase instantânea. Esse fenômeno tão natural para nós é resultado de um processo extremamente complexo. O vídeo do Nerdologia nos ajuda a entender melhor:

 

 

 

Basicamente, quando vemos um objeto verde, por exemplo, na verdade este objeto absorve todas as cores, exceto o verde. Por isso enxergamos a cor verde, pois foi a única refletida pelo objeto e absorvida pelas células de nosso olho.

 

Diante disso, você pode perguntar: e se a superfície absorver todas as cores sem refletir nenhuma, o que acontece dentro do olho humano, já que não haverá nenhum estímulo? Nesse caso, a ausência de luz também é reconhecida como uma cor pelo cérebro: o preto. Você já deve ter ouvido falar que o preto é a ausência de cores e o branco é a presença de todas as cores, e isto está certo. Quando todas as cores são rejeitadas pela superfície do objeto, ou seja, quando ele reflete todas as cores, isto é interpretado pelo cérebro como a cor branca. Este também é o motivo de roupas claras serem mais adequadas para dias quentes e roupas escuras para os dias frios. Ao absorver todas as cores, o preto absorve muita energia, e isso se transforma em calor. O contrário acontece com o branco, que reflete a luz e a energia, por isso não absorve muito calor. Isso explica a nossa questão inicial.

 

 

Para os filósofos clássicos, essa riqueza de detalhes e de fenômenos que acontecem na Natureza, na verdade é reflexo de uma realidade mais profunda, mais elevada e mais verdadeira.  Assim, todos os fenômenos do mundo físico são simbólicos ou representativos, ou seja, tudo aquilo que os nossos olhos vêem no mundo material, na verdade são reflexos de um mundo transcendente. A este mundo invisível para os olhos, mas que é a causa de todas as coisas, Platão chamava de “Mundo das Ideias”.

 

No livro “A República”, Platão conta um mito a respeito de uma sociedade que vivia no subterrâneo de uma caverna, sem ter consciência do que acontecia lá em cima, pois eles nasciam, cresciam, envelheciam e morriam acorrentados dentro dessa caverna, e todas as imagens que eles percebiam não passavam de sombras projetadas na parede. Ao contar esse mito, o autor começa a conjecturar: e se um desses escravos se inquietasse tanto que conseguisse romper as correntes e chegar até a saída da caverna? Provavelmente ele se depararia com um mundo que ele jamais seria capaz de imaginar. E é exatamente isso que acontece,  quando a retina do escravo liberto encontra com os raios de luz provenientes do Sol, ele passa a compreender uma realidade completamente nova, com cores vivas e muito mais nítidas que as sombras da caverna. No simbolismo do mito, este momento representa a Alma Humana quando consegue superar a experiência material e se torna capaz de “enxergar” a Luz da Verdade, alcançando o Mundo das Ideias, onde habitam os Grandes Ideais, as Grandes Virtudes, como o Bem, a Beleza e a Justiça perfeitas.

 

O fenômeno das cores e da visão Humana nos dão um sinal de como “ver” o invisível, ou de como descobrir essa ordem de Realidade que está para além do mundo material. Assim como o olho Humano só consegue ver a partir de um objeto opaco refletindo luz, o Mundo das Ideias também só é perceptível quando conseguimos identificar seus reflexos neste mundo transitório em que vivemos. Nós somos capazes de ver a Beleza em uma flor, ver a Beleza na vastidão dos oceanos, a Beleza no pôr do sol, a Beleza em uma orquestra tocando uma sinfonia de Beethoven. Perceba que a flor, os instrumentos da orquestra e mesmo a imagem dos oceanos e do pôr do sol são todos objetos efêmeros. Quanto tempo dura um violino? Quanto tempo dura uma flor? Muito pouco comparado com a eternidade, não é mesmo? Mas quanto tempo dura a Beleza em si? 

 

Se pegarmos os escritos mais antigos da Humanidade, como os escritos védicos ou as narrativas de criação do mundo do Gênesis, veremos que quem os escreveu estava irradiando a Beleza. Então a Beleza é algo deste mundo transcendente, é eterna e perfeita em si mesma, mas nós só conseguimos enxergá-la quando ela é refletida por elementos frágeis, opacos e efêmeros do mundo material, como um violino ou uma flor. Dentro desta forma de pensar, não é correto dizer “a Beleza da flor”, pois a flor não possui um atributo chamado “Beleza”. O correto é dizer a “Beleza na flor”, pois a Beleza como este grande Ideal transcendente, é única, é sempre a mesma, e podemos percebê-la se manifestando através da flor.

 

 

Assim também acontece com o Bem. Imagine uma mãe acolhendo um filho que acabou de nascer em seus braços. Um momento como esse é passageiro, só dura alguns minutos, e apesar de fisicamente estar embebido em sangue, suor, lágrimas e dor, é comum que a mãe considere esta experiência como algo que ressoará em seu coração por toda a Vida. É disso que Platão está falando, as coisas do Mundo das Ideias, ou  do Mundo Espiritual, somente são percebidas quando refletidas na opacidade dos elementos deste mundo frágil e transitório em que habitamos. É semelhante ao que acontece com o fenômeno da percepção das cores pelo olho Humano, decorrente do reflexo da luz sobre os objetos opacos.

 

De posse desse conhecimento, o melhor que podemos fazer é começar a enxergar as coisas não de forma superficial, mas sim tentando compreender o que está se manifestando em cada uma das experiências, desde as mais simples do nosso dia a dia, até as mais complexas. Precisamos tentar enxergar o Espiritual de refletindo no material. No crescer de uma planta, no afago de um animal de estimação, na vitalidade de uma criança, na velhice de um ancião... Em tudo, precisamos ver e sentir os vestígios de uma ordem de Realidade, de um Mundo Superior, que nunca termina, que transcende e dá sentido à pequenez da vida material e que nos faz Seres Humanos mais profundos e melhores.

 

 

 

 

 

 

 

 

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