Brás Cubas e o Humanismo de Machado de Assis



O romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, escrito em 1882 por Machado de Assis já começa de forma chocante: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Polêmica para sua época, a obra é um marco na literatura nacional tanto pelo estilo narrativo inovador, como também pela narrativa marcada pela ironia e sarcasmo. Não à toa, Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado por muitos estudiosos como o livro que inicia o movimento do realismo literário no Brasil. Entretanto, não podemos falar sobre uma obra sem antes conhecer um pouco melhor o seu autor.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro e teve uma origem humilde. Perdeu sua mãe muito cedo e, alguns anos depois, quando tinha somente 12 anos, seu pai também veio a falecer. Por isso, sendo negro e pobre, começou a trabalhar vendendo balas e doces, para poder ajudar em casa. Não conseguiu ter muito acesso à educação formal, tendo cursado apenas alguns anos em uma escola pública. Porém, apesar de todas essas dificuldades, o seu Amor pela literatura e pelas línguas estrangeiras sempre o manteve ligado aos estudos.


Nunca frequentou uma universidade, porém nunca lhe faltou sede de aprender. Ele alimentava a sua intelectualidade de outras formas, estudava sozinho, buscava emprego em redações de jornal, para aprender com os mais experientes e fez amizade com vários escritores famosos da época. Por isso nunca ficou abaixo dos doutores diplomados do seu tempo, tanto é que foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, a maior instituição literária do Brasil.


Também conseguiu produzir, ao longo de sua Vida, trabalhos em todos os gêneros literários, o que demonstra sua versatilidade como escritor. Seus romances foram traduzidos para diversas línguas, tornando-o, para alguns, o escritor negro mais lido de todos os tempos. Recentemente, “Memórias póstumas de Brás Cubas” ganhou uma nova edição nos EUA e, para a surpresa de todos, em menos de um dia, todos os exemplares foram vendidos. Mas o que torna a obra de Machado de Assis tão especial?


Um dos principais pontos do livro está na maneira inovadora de contar a história: o narrador, e principal personagem da obra, já está morto desde o início. Ele então contará ao leitor a sua Vida, e por já ter morrido, não precisa preocupar-se em agradar ou medir as suas palavras. Esse ponto permite uma narrativa cheia de sinceridade, sarcasmos e ironias do narrador com os outros personagens. Como o próprio Brás Cubas destaca, depois de morto, não havia necessidade de agradar mais ninguém. Outro ponto que chamou a atenção na época (e até hoje é utilizado em diversos livros, filmes e séries) é que a narrativa não é linear: o livro já começa do fim, com o enterro do protagonista. O que hoje é muito comum, na época foi considerado uma quebra de paradigma na literatura do século XIX. Esse recurso, de começar a história do meio (ou do fim) e a partir desse ponto voltar ao início, é chamado de digressão.




Para além dos detalhes literários, o brilhantismo de Machado de Assis se apresenta em seu conteúdo. Sua narrativa busca expor a falsidade e a hipocrisia dentro da sociedade brasileira do século XIX. A obra “Brás Cubas” mostra de forma aberta os vícios da sociedade, as relações por interesse, a luta desmedida por alcançar um status, as falsas amizades e os amores que não sobrevivem sem o dinheiro. Por causa dessa série de assuntos, tratados também em outras obras, Machado de Assis foi considerado um pessimista pelos seus contemporâneos. Entretanto, ao observarmos atentamente seus escritos, perceberemos o Valor Humano que Machado de Assis impunha com sua Moral Humanística, que fazia uma contraposição dentro das narrativas.


O que Machado de Assis buscou retratar, e isso o faz muito bem em Memórias Póstumas, foi a realidade social que o cercava, que cada vez mais se distanciava dos Valores Humanos defendidos pela filosofia clássica. Em “O Alienista”, o autor expõe uma crítica muito bem humorada ao cientificismo, uma mentalidade que dá primazia à ciência sobre todas as outras formas de compreender o mundo. O protagonista da obra, Dr. Simão Bacamarte, é um médico que dedica toda a sua vida à ciência e aos estudos sobre a psiquiatria. Ao começar a analisar as pessoas da pequena vila de Itaguaí, acaba por internar praticamente todos no manicômio que ele mesmo havia construído. Por fim, chega-se à conclusão de que o insano era o próprio Dr. Simão, pois vivia alienado no conhecimento teórico dos livros e pesquisas, e era incapaz de compreender os Seres Humanos na Vida real.


Em outra de suas famosas obras, “Quincas Borba”, Machado expõe uma outra mentalidade presente na sociedade de sua época. O protagonista, Quincas Borba, é o criador de uma controversa filosofia chamada de “Humanitismo”. Esta filosofia moral refere-se, em síntese, à lei do mais forte. “Ao vencedor, as batatas”, é a famosa expressão imortalizada no texto do escritor. Entretanto, percebe-se mais uma vez, que utilizando-se da ironia e da sátira, Machado de Assis expõe a falta de Valores Humanos dentro da relação em que o mais forte vai dominar o mais fraco. Não à toa, o personagem Quincas Borba é tido como louco ao longo de sua narrativa, para evidenciar a discrepância entre tal sistema de Valores e um Verdadeiro Humanismo.




Por tamanha profundidade em suas publicações, Machado de Assis é reconhecido como um imortal da Academia Brasileira de Letras e um gênio da literatura. Suas obras não fixam apenas em um tempo e um espaço determinado, como uma fotografia de um tempo que já passou, mas discute e apresenta, de maneira divertida muitas vezes, a realidade ainda existente em nossos dias. Infelizmente, em nosso país, são poucos os que debruçam-se sobre as obras de Machado de Assis e seus personagens, pois dedicamos muito pouco tempo à literatura nacional, ou talvez à literatura como um todo.


Que possamos, então, redescobrir os clássicos, tanto os estrangeiros como os que estão aqui, próximos de nós, e aprender com eles sobre os Valores que desejamos cultivar, fazendo da Arte uma ponte entre as ideias e a nossa Vida.

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