O Profeta Gentileza

July 7, 2020

 

 

Entre as décadas de setenta e noventa, um personagem muito curioso rondava as ruas das cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Este ficou conhecido como o “Profeta Gentileza”. De barbas longas e cabelos compridos como os de Jesus, vestia uma túnica branca com letras garrafais estampadas em bordas verde e amarela com expressões do tipo “GENTILEZA GERA GENTILEZA”. Carregava um cartaz com as mesmas expressões e andava suavemente entre os carros engarrafados no trânsito, entregando flores às pessoas, falando palavras gentis, agradecendo e sempre sorrindo. 

 

Quem era aquele personagem tão intrigante? Qual a sua história? Como tudo começou?  Que mensagem estava passando? O que isso tem a ver com a nossa realidade hoje? 

 

 

Tudo começa em 1961. Um desses anos cheios de acontecimentos diferentes, a começar pela renúncia inusitada do presidente Jânio Quadros que deixou toda a nação em espanto, diante de sua atitude sem explicação. Mas o acontecimento que marcou mesmo este ano foi uma das maiores tragédias da história deste país: o incêndio criminoso do Gran Circo Norte-Americano na cidade de Niterói. Falam-se em 500 pessoas mortas, a maioria, infelizmente, crianças. Muitos animais também morreram nas chamas. Era um dos maiores circos de todo o continente americano, somente a lona que o encobria pesava mais de seis toneladas, e a propaganda do circo enfatizava que o material era de náilon. O proprietário havia contratado cerca de cinquenta homens para instalar a estrutura na cidade de Niterói para a estréia.  Os ingressos esgotaram rápido. Na tarde do dia 17 de dezembro de 1961, quando a tenda já estava superlotada, um dos trabalhadores que havia sido demitido, na tentativa de se vingar, jogou fogo sobre a lona. Tragicamente, o material não era náilon, era algodão revestido com parafina, extremamente inflamável. O fogo avançou muito rápido, algumas pessoas conseguiram escapar das chamas, mas a maioria não conseguiu. O pior é que naquele momento os profissionais da saúde estavam em greve e alguns hospitais estavam fechados. O dissabor era muito grande, foi um dos dias mais trágicos que a cidade de Niterói já viveu.  O saldo foram muitos cadáveres, muita revolta e muita tristeza.

 

Esse evento impactou fortemente um homem em especial, pai de cinco filhos, três meninas e dois meninos. José Datrino era um pequeno empresário, tinha cerca de quarenta anos e um patrimônio razoável. Seus filhos não haviam morrido na tragédia, mas ele sentiu profundamente a dor dos pais que haviam perdido os seus ali. Diante de uma sociedade tão infectada de ódio, vingança, violência, revolta, e um país que estava à beira de uma convulsão social, nesse momento, algo despertou dentro dele. No dia 23 de dezembro, José recebeu um chamado e decidiu abandonar todos os seus bens e passar a viver como um pregador da gentileza. A sua primeira medida foi construir um jardim sobre as cinzas do que sobrou do circo, e ali também passou a morar. Assim nasceu o “Profeta Gentileza”, famoso por espalhar palavras de Amor e por consolar os parentes das vítimas. Em uma música que ele mesmo compôs, dizia que o circo representava o mundo redondo, ou seja, o planeta, e o incêndio representava a destruição desse planeta. 

 

 

A partir daí ele passa a percorrer as ruas da zona central do Rio de Janeiro como uma espécie de andarilho ou pregador religioso, mas a mensagem reiterada girava em torno da ideia de que as pessoas deveriam ser mais gentis umas com as outras, amar mais uns aos outros, serem irmãos e se desapegarem dos bens materiais. 

 

Assistindo a algumas entrevistas antigas dele, percebe-se que a linha da conversa não é tão bem ordenada. Não é para menos que ele era visto pela sociedade de então como um louco. Entretanto, o que faz tanta gente hoje ter tanto respeito e admiração pelo “Profeta Gentileza”, é que, ao olharmos para toda a sua trajetória, percebemos uma grande coerência, pois sempre foi um homem que foi fiel ao que acreditava, por isso dedicava muitas ações, sentimentos, e toda a sua vida em nome de um ideal que carregava dentro de si. 

 

Aquele personagem era o grito personificado em resposta a o mundo louco em que vivia, a uma sociedade desequilibrada e desordenada. Em 1961 tínhamos um mundo rachado entre dois blocos políticos, que se digladiavam em uma guerra fria, que levou vários países a sofrerem bloqueios econômicos, entrarem em corridas armamentistas, recessões econômicas, supressão de direitos e retrocessos civilizatórios. O Rio de Janeiro, uma cidade paradisíaca, centro cultural do país, já era marcada pelo crimes, e o atentado do Gran Circo foi símbolo definitivo que marcou a capacidade de degradação da Alma Humana. É nesse contexto que emerge o Profeta, com um discurso que embora oscilante entre razão e emotividade, traz nas entrelinhas uma mensagem coerente: a solução para um mundo assim tão louco, é viver a loucura de cultivar o Amor, a Compreensão, a Gentileza, a Paz, a Consciência de que somos irmãos, o desapego aos bens e o doar-se ao outro sem querer nada em troca. 

 

 

 

Esse era o núcleo da mensagem do “Profeta Gentileza”, é a parte que importa. Todo o restante é só superfície, os cabelos desgrenhados, a barba longa e descuidada, as entrevistas incoerentes, tudo isso faz parte da caricatura, era a capa excêntrica necessária para chamar a atenção para a seriedade de sua mensagem. Só entende o Profeta, quem rompe a primeira impressão e busca ler nas entrelinhas do grande “livro de concreto”, que ele escreveu nas 56 pilastras que sustentam um dos importantes viadutos do Rio de Janeiro. 

 


Esse termo Gentileza tem origem na palavra “gentes”, que por sua vez, vem do radical latino Gens e significa origem, indicando pertencimento a algum tipo de espécie que tem a mesma origem. E é isso o que nos define. Independente de credos, de etnias, de classes sociais, de orientação política, ideológica ou religiosa, todos somos de uma mesma espécie, uma família humana, que tem a mesma origem, o mesmo ponto de partida. Por isso a Gentileza é um estado de consciência. Quando despertamos uma consciência profunda para a ideia de que somos todos Um, e quando esse despertar de consciência se traduz em tudo o que sentimos, falamos e fazemos, aí é que nasce a verdadeira Gentileza. Que o protagonismo desse inusitado personagem da nossa história, possa acordar em nós um impulso em direção a essa consciência. Sejamos nós também a Gentileza!

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