A Face Humana Através da Nossa Mitologia Indígena

July 1, 2020

Já parou para pensar na riqueza que existe em nossa mitologia indígena? Sim, temos mitos diversos que contam a saga humana sob a perspectiva dos povos nativos. Certamente, os nomes de Zeus, Prometeu, Athena e todo panteão grego nos parecem mais familiares, em razão da influência europeia em nossa formação, a qual tem suas raízes na cultura grega e romana. Porém, os nossos índios possuem uma herança mitológica riquíssima, que ainda permanece viva entre os milhares de nativos que habitam nosso território, e é tão bonita e profunda quanto àquelas que contam sobre os trabalhos de Hércules ou a jornada de Odisseu. Nossos grupos indígenas estão concentrados nas regiões Norte e Centro Oeste, cada um com seu próprio idioma, crenças e costumes. Segundo alguns antropólogos, os mitos para os povos indígenas têm uma função maior e mais importante do que somente a transmissão dos fatos históricos ocorridos nas comunidades, eles são a forma de preservar valores fundamentais da cultura e da religiosidade, que atravessam as várias gerações, e mantém a identidade desses povos.

 

É natural para todas as culturas humanas, que os mitos e as lendas estejam ligados à compreensão e o sentido que elas atribuem aos fenômenos da natureza e aos eventos da vida. Assim, cada civilização humana vai cristalizando através das narrativas orais o significado de suas origens e existência. Nas mitologias indígenas não é diferente. Por isso, se equivoca quem pensa que não há profundidade humana por trás de cada uma dessas narrativas dos povos nativos. A experiência do povo se revela através desses mitos, e dá significado aos fatos do cotidiano como, por exemplo, a importância de certos alimentos, o cuidado e a manutenção da energia vital e também o respeito diante das matas, dos rios e de todos os seres da natureza, principalmente nos momentos de caça para alimentação. 

 

As práticas culturais, a agricultura e a sacralização dos fenômenos naturais, como o trovão e os eclipses, revelam o desafio de viver a saga humana harmonizada com os diversos aspectos da natureza. No cotidiano desses povos, tudo deve ter uma finalidade clara para o indivíduo, desde uma cerimônia religiosa até o simples hábito da construção de um instrumento de trabalho. Podemos aprender, com essas narrativas, que a vida nos oferece todos os dias uma lembrança do real sentido por trás de cada atividade que fazemos. Nós temos a liberdade de escolher se entramos na mecanização de uma vida sem profundidade, ou se buscamos compreender o sentido de cada coisa que nos acontece.

 

Fonte: https://www.xapuri.info/

 

Um ponto importante nesses mitos é que eles estão ligados diretamente a aspectos e elementos da natureza, palco onde se desenvolve todos os fatos e acontecimentos. Vale lembrar que a floresta é considerada pelos nativos como o seu mundo, o seu habitat, pois é dela onde se obtêm tudo o que precisam para sua existência material, desde a construção de suas casas, os de seus utensílios básicos, suas ferramentas, seus implementos de caça, até a alimentos e remédios. Por acreditar que compartilham esse habitat com outros seres e animais de muitas espécies diferentes, precisam manter uma relação harmônica, equilibrada e de muito respeito com o meio ambiente, para o bem de todos. A beleza e riqueza dessa relação de grande respeito com o meio ambiente e a coexistência com outros seres nos faz lembrar do sentimento profundo de Unidade e Pertencimento, não só entre os seres humanos, mas com toda a Natureza. 

 

A nossa literatura brasileira está repleta de Deuses pertencentes aos panteões indígenas, principalmente dos Tupis e Guaranis. Quem nunca ouviu falar do Deus “Tupã”, conhecido como o Deus criador que deu origem a todas as coisas? Ou mesmo de “Guaraci”, que representa o Sol doando vida e iluminando tudo o que há no mundo. Nesta rica mitologia, encontramos também “Jaci”, a Lua, que foi criada para iluminar a noite e proteger as plantas e os animais. Outra figura muito importante deste panteão é o Deus “Anhangá”, que representa o mundo dos mortos. É conhecido por trazer o castigo àqueles que viveram de forma cruel. Todos estes símbolos, da mesma forma que as mitologias europeias e orientais, não são fantasias de povos ignorantes, mas sim uma linguagem especial para comunicar ideias muito elevadas, uma linguagem que não pode ser compreendida somente com a mente cartesiana.

 

Um Deus que desperta uma curiosidade especial é o Deus da agricultura, a divindade de nome “Sumé”. De origem misteriosa, esta divindade tem as suas características diferentes dos outros Deuses, pois, nas narrativas tradicionais, ele é apresentado como um homem branco de cabelos e barbas brancas, e que tinha o poder de flutuar. Ele é o responsável pelos ensinamentos das regras morais e sociais das tribos, e possui a capacidade de curar todos os doentes. É conhecido como o Deus da agricultura, porque repassou as técnicas de plantio, da transformação da mandioca em farinha, dos nomes das ervas que curam, etc. A questão que mais intriga é pensar de onde surgiu a representação de um homem branco com barbas brancas, já que os nativos não possuem barba e nem pele branca? Considerando que era um indivíduo dotado de muitos conhecimentos e poderes, há pensadores que o associam à famosa civilização de Atlântida. A polêmica é que, para muitos historiadores, Atlântida é apenas um mito e não existiu historicamente, porém, esses relatos de um homem que veio do mar trazendo sabedoria é muito comum nas culturas americanas, desde os Astecas, os Maias e até os Tupis e Guaranis. Isso é coerente com a versão que diz que nesta ilha de Atlântida, existia uma civilização muito avançada, que levou conhecimento para suas colônias, em vários lugares da Terra. 

 

Cada povo da Terra tem seus mitos que explicam a sua origem, a forma como passou a existir. Ou seja, são os chamados mitos cosmogônicos. Em geral, são transmitidos oralmente, de geração em geração e são muito importantes na formação do Indivíduo e da sociedade. É bonito perceber a história humana também sendo contada através dos povos indígenas. E como não poderia ser diferente, para esses povos, a Natureza é o palco desta saga humana. Essas narrativas míticas estão diluídas em diversas lendas e estórias regionais que vão unificando a riqueza de nosso espírito cultural, nos transformando em uma nação forte, principalmente, porque reúne em si elementos diferentes que se complementam harmonicamente, e tem o poder de nos aproximar de nossa face humana, reforçando uma premissa interessante: somos uma única humanidade.

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