Conto Zen – O Roubo

June 21, 2020

 

 

Vivemos uma sociedade virtual. Nesse mundo de liberdade quase desmedida, podemos ser quem quisermos e o que quisermos. Nos esforçamos para publicar a aparência de uma vida perfeita, feliz e emocionante. A despeito de nossos próprios dramas internos, vamos criando uma imagem de perfeição impossível, em um mundo imperfeito. O risco nessa encenação é que muitas vezes acabamos apegados às personagens que criamos e esquecemos quem realmente somos. Somente aqueles que possuem identidade, podem se comportar de acordo com ela em qualquer contexto. E para ter identidade, é necessário conhecer o seu próprio Ser. Mas só sabe alguma coisa, quem reflete em alguma medida. Platão, esse grande filósofo grego, já nos advertia que “uma vida não refletida, não merece ser vivida”. Por isso, são os filósofos aqueles a quem recorremos quando queremos refletir sobre quem é o Ser Humano. Lembremos da famosa frase escrita no pórtico do oráculo de Delfos na Grécia antiga: “Conhece-te a ti mesmo”.

 

Quando o velho mestre do mosteiro de nosso conto pediu aos jovens para roubarem, ele estava pedindo para que cada um examinasse sua própria consciência e encontrasse a resposta para a pergunta: Quem é você? A grande maioria respondeu com seus atos que eram pessoas que queriam o reconhecimento do mestre, e que estavam dispostas a fazer qualquer coisa por isso. Ou seja, eles precisavam procurar fora de si mesmos a resposta para a pergunta.

 

Quando saímos do conto a passamos para a nossa vida, aquelas questões permanecem em nossa reflexão: Quem eu sou? O que define meu caráter? Será que eu sou definido sempre por questões externas? Eu dou poder às pessoas e às circunstâncias para definirem a minha própria identidade, ou eu consigo encontrar dentro de mim mesmo a resposta para todas essas perguntas? 

 

Esta é uma reflexão às vezes muito difícil, mas sempre muito necessária. Não podemos negar que as máscaras estão presentes na nossa realidade, e é claro que a forma que nos comportamos em uma festa com os amigos não pode ser a mesma em uma reunião de negócios. Mas o problema é quando eu sou uma pessoa na festa e outra na reunião, quando meus valores mudam, quando a minha identidade muda. 

 

O mais preocupante é que, na sociedade em que vivemos, este comportamento se tornou normalizado. Aos olhos do público, somos politicamente corretos, mas na intimidade prevalece o egoísmo e a grosseria. Nas redes sociais “militamos” pelas mais nobres causas, mas na vida real nem percebemos os problemas das pessoas de carne e osso que nos cercam. No campo da política, odiamos aqueles que são corruptos, mas se a corrupção for por parte do meu político preferido, eu crio logo uma desculpa. Ou então, voto naquele que promete enfrentar os “ricos” e defender os “pobres”, mas quando percebo que esse mesmo político passou a vida toda enriquecendo às custas dos pobres, eu crio mais um padrão para justificar o injustificável.

 

Essa incoerência, que parece ser a regra de nossos tempos, gera uma fragmentação na psique do ser humano, pois não é possível manter uma unidade de pensamento. E por consequência, toda a sociedade se torna cada vez mais “quebrada”. Isso nos faz lembrar de mais um conceito que é o “indivíduo”, aquilo que não se divide. Para alcançar a nossa individualidade, precisamos encontrar dentro de nós aqueles valores que não se quebram jamais, e sendo fiéis à eles, encontraremos a nossa verdadeira identidade.

 

Lembre-se do conto “O Roubo”, sobre o que refletimos neste texto. De todos aqueles discípulos, apenas um se conhecia de verdade. Ele se manteve fiel à honestidade, não por pressão externa, mas por ter encontrado este valor dentro de si mesmo. E ainda que ninguém estivesse olhando, esse seu “eu verdadeiro” estaria presente e não deixaria que ele fosse outro. Assim, ainda que o seu amado mestre estivesse lhe pedindo, ele não conseguiria trair a si mesmo. Um homem assim é um homem livre! Um homem que não pode ser manipulado, nem com as piores ameaças e seduções. E ainda que a própria divindade aparecesse e lhe pedisse, ele ainda continuaria fiel a sua identidade. Tal como Buda, quando foi tentado enquanto meditava sob a grande árvore Boddhi. Foi assim, que grandes homens como Sócrates, Sêneca, Giordano Bruno e Confúcio enfrentaram as provas mais difíceis e entraram para história: sendo fiéis àquilo que suas próprias almas cobravam deles, vivendo de acordo com virtudes humanas. Somente aquele que sabe quem é, está livre da opressão da opinião alheia. Quem verdadeiramente é, não pode deixar de ser nem por um instante. Então, façamos como aconselhou a filósofa Helena Blavatsky: “Honrai a verdade com a prática”... Vamos honrar com nossas ações a Verdade que mora dentro de nós.

 

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