Os Doze Trabalhos de Hércules

June 3, 2020

 

 

 

 

 

O Mito de Hércules fala da nossa jornada interior por despertar o que há de melhor em nós: Autodomínio, Superação, Vontade, Força para viver, Força para conquistar nossos sonhos e para nos fazermos Humanos. O que estamos chamando de “Humano” é uma construção, não o somos automaticamente por causa do nascimento ou por um lance de sorte da natureza, como acontece com os outros seres, o que nos faz de fato Humanos é a reunião de todas as nossas forças interiores na batalha contra nossos impulsos para os instintos, para os vícios autodestrutivos e para a degradação de toda sorte. O “Humano” é uma conquista difícil, uma batalha dura, e as grandes tradições nos deixaram dicas de como vencer essa luta. O Mito de Hércules é uma dessas dicas. 

 

Dentro da vastíssima e complexa mitologia greco-romana, Hércules se destaca como um Semideus, filho de Zeus, Deus dos Deuses, com uma mortal. Quando adulto, com uma esposa e filhos, algo terrível aconteceu. Hércules foi tomado por um impulso interior monstruoso e desconhecido, e assassinou sua esposa e seus filhos. Quando caiu em si quanto à tragédia, desabou em uma espécie de depressão aguda, fugiu para um lugar desértico e se isolou do mundo em um tipo de autopunição. Sua vida teria se acabado ali, provavelmente isso terminaria em um suicídio, não fosse seu primo Teseu, que o encontrou e lhe deu um conselho: “Vai até o oráculo em Delfos e pede ajuda”. 

 

Todas as civilizações antigas tinham uma espécie de oráculo, um meio de acesso a respostas muito profundas sobre questões interiores. Esse meio poderia ser uma pessoa ou um objeto, algo que promovia uma ligação entre a pessoa que questionava e a resposta sublime e misteriosa do Divino, do Universo, de Deus ou de um dos Deuses. No filme Matrix, tem uma cena bem ilustrativa de um oráculo, em que o personagem principal, Neo, o procura para saber se ele seria o escolhido, o que era uma questão central e angustiante de sua vida e de toda a trama. Essa é uma ilustração do que Hércules fez, e a resposta não foi nada fácil. O oráculo lhe disse que teria que enfrentar doze batalhas muito difíceis, e se vencesse todas, estaria redimido e conquistaria a imortalidade.

 

Observe que a mensagem que o Mito está nos trazendo é que, para vencermos nossas debilidades, nossas depressões, nossos vícios, é preciso lutar. O oráculo não resolve o problema de Hércules, mas aponta o caminho. Viver é lutar. Todas as instâncias de nossa constituição humana estão envolvidas em uma batalha incessante. Nosso sistema imunológico é um campo de batalha sem trégua, onde nossas células lutam o tempo todo destruindo e neutralizando invasores, que embora microscópicos, são verdadeiros monstros, a exemplo dos que Hércules teve que enfrentar. Nossos ânimos, nossa energia estão o tempo todo em conflito com a inércia, com a preguiça. Observe que tem dia que estamos mais entusiasmados, tem dia que estamos mais “para baixo”, isso é uma batalha no campo energético. Na esfera das emoções também há uma batalha se travando entre desejos, inclinações depressivas e sentimentos nobres, nossa psique luta o tempo todo por equilíbrio. Na esfera mental, também acontecem combates de gladiadores, entre a lucidez e a paranoia, o razoável e a insensatez. São milhões de pensamentos por segundos que nos atravessam. Viver é uma jornada hercúlea e a mitologia grega deu um jeito de transformar isso em uma narrativa mítica. Hércules nos mostra que é possível vencer, que essa batalha parece difícil, mas não está fora do nosso alcance. 

 

O primeiro trabalho que ele enfrentou foi a captura de uma besta selvagem que aterrorizava uma região chamada Neméia, era uma espécie de leão que já havia matado milhares de pessoas. Nenhum homem conseguia matá-lo, pois seu couro era impenetrável, e só as suas próprias garras poderiam fazê-lo. Hércules tenta abatê-lo com flechas, mas é impossível. Então parte para cima da fera com uma clava forte e atinge-lhe a cabeça com força, em seguida estrangula-o e arranca-lhe o couro com as suas próprias garras. A partir daí, transforma a pele da fera em um manto para protegê-lo, e com a cabeça do leão confecciona uma espécie de capacete de proteção. 

 

 

Tudo isso é representativo das nossas batalhas. Há problemas na vida que não conseguimos abatê-lo apenas com a força da mente, calculando como resolver, é preciso partir para cima com um bastão e “abatê-lo” à força, arregaçando as mangas e botando a mão na massa. A batalha pode ser difícil, mas ao final poderemos obter os frutos da conquista, transformando o problema em recursos para nos fortalecer diante das adversidades que surgirão. 

 

As provas seguintes tinham o grau de complexidade cada vez maior, depois do Leão de Neméia, vem a Hidra de Lerna, que era uma espécie de criatura com corpo de dragão e várias cabeças de serpentes venenosas, que matava os homens apenas com o seu hálito e em seguida os comia. Hércules inicialmente esmaga algumas cabeças, mas da ferida surgem duas outras, então ele vê que precisa mudar a tática e assim passa a usar um tição para queimar a ferida da Hidra ao cortar cada uma das suas cabeças, a fim de que não nasçam outras. É uma batalha muito difícil, mas depois de muita luta, Hércules consegue vencer. Assim como a Hidra são os nossos vícios, se cortarmos apenas uma de suas cabeças, no futuro surgirão outras para piorar a situação. Por isso precisamos utilizar a inteligência, simbolizada pelo fogo, para poder vencê-los calmamente.

 

A cada batalha ele vai se tornando mais forte, mais resistente, mais experiente, os trabalhos vão ficando mais difíceis, mas ele também vai se tornando mais poderoso. E então, vem a captura da Corça de Cerineia, uma criatura tão veloz e tão incansável, que Hércules levou um ano perseguindo-a. Venceu-a pelo cansaço, pois a corça chegou à exaustão e só assim foi capturada, tal foi a constância e insuperável insistência de Hércules. A maioria dos problemas que nos aparecem de forma tão monstruosa são vencidos com o tempo, com a insistência, com a constância. O trabalho subsequente, o Javali de Erimanto, é vencido da mesma forma, pela insistência de Hércules. Tratava-se de uma criatura assustadora que devastava tudo nos arredores do monte Erimanto, e para vencê-lo Hércules o persegue até levá-lo à exaustão, e quando o monstro já não tinha mais energia, começou a vacilar e foi capturado. 

 

Esses esforços só o fortalecem, depois de capturar o Javali, ele inicia um quinto trabalho: a limpeza dos currais do Rei Áugias, que possuia três mil bois. A atividade era tão difícil de ser executada que já faziam trinta anos que os currais não eram limpos. Há impurezas em nossa vida que se acumulam por tanto tempo, que parece ser impossível de superá-las, mas conseguiremos purificá-las quando nos fortalecermos o suficiente. Após a purificação dos currais, Hércules é surpreendido por monstros no lago Estínfalo, que possuiam asas, cabeça e bico de ferro. Esses monstros eram tão gigantescos que suas asas abertas encobriam os raios do sol tornando escuridão tudo abaixo de si. Mas Hércules trazia consigo flechas envenenadas com o veneno da Hidra de Lerna, que vencera anteriormente, e é com esse veneno que ele consegue abater os primeiros monstros, assustando os demais que bateram em retirada. Isso mostra que nossas conquistas nos fornecem munição para os problemas vindouros. Mas os trabalhos não param, só estão na metade. 

 

O sétimo trabalho de Hércules foi capturar o enraivecido touro de Creta, um animal monstruoso que aterrorizava todos e ninguém conseguia domá-lo. Hércules não somente o captura mas monta no animal e desfila vitorioso pelas ruas de Creta. Depois, ele tem que castigar reis, enfrentar as amazonas, que eram mulheres guerreiras invencíveis, além de matar dragões de cem cabeças.

 

 

O último trabalho foi capturar Cérbero, que na mitologia grega era um cão monstruoso de três cabeças que guardava a entrada do Hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Hércules o captura e termina o seu último trabalho conquistando a imortalidade. 

 

 

Toda essa saga foi construída ao longo de milhares de anos, a partir da concatenação de narrativas mais antigas ainda, repassadas por várias gerações através da cultura oral. Hoje, podemos olhar para essas narrativas e descortinar nelas a grande mente humana. Todos esses fatos apontam para um grande inconsciente coletivo e tratam de aspectos psicológicos, existenciais e não só isso, mas também apontam para a evolução de toda a Humanidade. 

 

A evolução do Espírito Humano é uma enorme batalha travada contra monstros análogos a esses que acabamos de ver, e o futuro de toda a Humanidade aponta para uma vitória sobre o mundo material e tudo aquilo que é “mortal”. No mesmo compasso, podemos encontrar nesse mito um alento para a batalha tão dura que travamos contra nossa natureza animal, no intento de nos humanizarmos. Hércules nos mostra que a cada conquista nos tornamos mais fortes, mais velozes e mais inteligentes. É preciso lutar, é preciso ser constante, é preciso mudar a tática às vezes, ora perdemos, ora ganhamos, mas jamais devemos desistir. Esse mito é um convite para gostarmos de nossas batalhas, pois são elas a nossa fonte de poder, de força e de evolução.

 

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