O Simbolismo da Odisseia

May 26, 2020

 

 

Provavelmente você já ouviu algum desses nomes: Ulisses, Penélope, Aquiles, Atena, Zeus, Poseidon... Seja por causa de algum filme ou série, ou porque algum amigo chamava-se assim, o fato é que os épicos gregos estão ao nosso redor. Num primeiro momento, podemos achar narrativas como a “Ilíada” e a “Odisseia” cansativas e até “ultrapassadas”, afinal, o que um poema escrito na Grécia Arcaica poderia nos ensinar? Bem, a resposta é: TUDO! Escrita por Homero, tanto a Ilíada como a Odisseia são narrativas que não tratam apenas de uma história. Mais que um relato, elas guardam símbolos que retratam a saga humana em diversos aspectos. Hoje trataremos destes simbolismos e ideias presentes na Odisseia, a saga de Odisseu (ou Ulisses) para retornar à sua casa, Ítaca.

 

Para entendermos o que é a Odisseia, é necessário entendermos um pouco sobre o outro épico de Homero, a Ilíada. Esta narra a famosa Guerra de Tróia, travada entre gregos e troianos, que resulta na destruição desta famosa cidade da Ásia Menor. Ulisses foi o responsável por elaborar o plano que garantiu a vitória aos gregos. Para tanto, mandou construir um “presente” para ser dado aos troianos como sinal de paz. Era um imenso cavalo de madeira, no qual, em seu interior, escondia vários soldados gregos. Uma vez dentro da cidade, os soldados saíram do cavalo e abriram as portas da muralha, resultando na invasão e ruína de Tróia. Feliz com seu plano, Ulisses gaba-se que é a mais inteligente das criaturas e que nem os Deuses conseguiriam superar sua astúcia. Poseidon então escuta o vaidoso Ulisses e resolve ensinar-lhe uma lição: dificultaria o seu retorno para Ítaca,  onde sua rainha, Penélope, já o aguardava há 10 anos. E assim inicia-se a saga de Ulisses e sua tentativa para voltar ao seu lar.

 

 

Após a vitória em Tróia, o herói embarca com seus homens em diversas naus e começam seu regresso. A primeira ilha em que decidem parar é dominada por Calipso, uma ninfa que recebe Ulisses e seus homens demasiadamente bem. Suas naus ficam nas praia, abandonadas, enquanto eles passam dias bebendo, cortejando mulheres e divertindo-se com todo o entretenimento oferecido por Calipso e suas mulheres. Após sete dias mergulhados nesses prazeres, Ulisses lembra de seu objetivo, que deve voltar para Ítaca. O grego reúne seus homens e voltam para a praia. Ao chegarem lá, notam suas embarcações destruídas, cobertas de areia. A ninfa não havia contado, mas cada dia na ilha dela equivaleria a um ano no mundo dos homens. O tempo, afinal, não passava da mesma maneira ali. Após consertarem suas naus eles voltam para o mar e seguem viagem.

 

Após navegar por mais algum tempo, Ulisses e seus homens acabam por atracar em uma outra ilha, dessa vez a dos lotófagos, ou comedores de lótus. A flor de lótus, dentro da Odisseia, causa sono e esquecimento aos que a comem. Então ele envia um agrupamento de homens para reconhecimento da ilha, mas estes demoram a voltar de sua missão. Ulisses então descobre que os seus homens estavam comendo a flor de lótus, tal qual os nativos da ilha, e portanto haviam esquecido de sua missão. Ulisses os resgatam e amarram-os no navio para que estes não voltem para a ilha. Após isso, seguem sua viagem.

 

 

Um encontro com Éolo, senhor dos ventos, faz com que Ulisses receba dele dois sacos: um com bons ventos, que o ajudaria a se aproximar de Ítaca, e outro com maus ventos, que o levaria para longe de seu destino. Ulisses então abre o saco com os bons ventos e vai navegando com eles, enquanto que guarda em seu cofre o outro saco. A viagem corria bem e logo Ulisses estaria em sua ilha. No entanto, ele resolveu dormir para descansar. Seus homens, curiosos e ávidos, acreditando que havia ouro no saco guardado, aproveitaram que o capitão estava dormindo e foram verificar o que estava sendo guardado no cofre. O saco com maus ventos é aberto quando a ilha de Ítaca já podia ser vista no horizonte. Nesse momento, uma grande tempestade leva as naus para a direção contrária, afastando-os muitas milhas de Ítaca, retrocedendo e muito na viagem. Ulisses percebe que não pode mais descansar, e sua viagem continua.

Após esse evento Ulisses chega na ilha de Eana, a qual habita a feiticeira Circe. Ela acaba transformando parte da tripulação de Ulisses em porcos, mas estes são resgatados pelo nosso herói. Ele consegue dominar Circe e a obriga a desfazer seu feitiço. A clemência de Ulisses para com Circe faz com que a feiticeira o ensine a sobreviver ao próximo desafio: a ilha das sereias. Ulisses precisaria passar perto dessa ilha para retornar à Ítaca, então prontamente segue sua viagem.

 

 

As sereias e seus cantos faziam os homens ficarem apaixonados. Estes desviavam sua rota e chocavam seus barcos nas rochas, iludidos pelo canto destas criaturas sedutoras. Ulisses então tapou os ouvidos de todos os seus marinheiros com cera, para que nenhum ouvisse o maravilhoso canto das sereias. Quando chegou sua vez, a cera acabou, então pediu que os marinheiros o amarrassem ao mastro principal do navio e que não fosse solto, por mais que implorasse. Dessa maneira, rumaram para passar pela ilha das sereias. Estas atacaram o navio e cantaram seus mais belos cantos. Ulisses escutou todos, mas não cedeu. Estava amarrado no mastro, não podia ceder. Assim, conseguiram passar por mais esse desafio.

 

 

Seguindo sua viagem, Ulisses finalmente chega à conclusão de que, por si só, não é capaz de realizar seus objetivos. Assim, somente após fazer as pazes com os deuses, o herói finalmente consegue retornar para o seu lar e para Penélope, a sua amada. E, por fim, volta a governar Ítaca.

O que podemos aprender com a saga de Ulisses? Será que suas aventuras e provas tem uma lição a nos ensinar e inspirar? Devemos entender cada uma das provas que o rei de ítaca passou para compreendermos seus simbolismos. O primeiro destaque que podemos fazer é a razão pelo demorado retorno dele após a guerra de Tróia: achar-se melhor que os deuses. Quando acreditamos que somos mais inteligentes que a Natureza, que estamos em um patamar acima e que sozinho somos melhores, isso atrasa, certamente, nossa jornada. Achar que já sabemos é o primeiro sinal de que, provavelmente, não sabemos de nada. E assim é com Ulisses: a vaidade o faz sentir-se já um ser humano perfeito, acima de qualquer outro, e esta postura faz com seja preciso grandes lições em sua jornada, para que perceba a verdade: ele estava longe dessa perfeição.

 

 

Na ilha de Calipso, podemos perceber como os prazeres podem nos alienar de nossos objetivos. Sabe quando os “15 minutinhos” nas redes sociais se tornam horas? Esta ilha simboliza isso. Ao deixarmos que nossos desejos nos conduzam, pensamos estar vivendo um maravilhoso momento, mas na verdade nós estamos sendo escravizados, e nem sentimos o tempo passar. Quem nunca viveu isso? Ao fazermos ou estarmos em uma situação prazerosa, parece que o tempo “voa” e horas passam em minutos. Quando notamos, passamos o dia inteiro imerso em uma única atividade, envolto nela, e esquecemos nossos deveres. Lá, Ulisses pôde aprender sobre como os desejos nublam nossa visão acerca do que deve ser feito, e como isso é perigoso. Somente nessa ilha, Ulisses ficou sete anos. E nós, há quanto tempo estamos sob os encantos da ilha de Calipso?

 

 

Do mesmo modo, na ilha dos lotófagos, seus marinheiros esqueceram do que deveriam fazer e acabaram entretidos com a lótus. A falta de memória é um problema crucial e um grande empecilho em nossa jornada. Afinal, se eu não lembro o que devo fazer, como irei fazer? A memória é uma peça fundamental, por isso não podemos esquecer nossos objetivos e onde queremos chegar. Ulisses aprende essa lição e resgata seus homens. Em nossas vidas, é comum nos esquecermos de endereços ou de números, o que não é legal. Mas o pior dos esquecimentos é quando não lembramos mais quem somos e qual é o sentido desta jornada que é a Vida. Por isso, sempre que esquecermos da nossa “Ítaca”, que tenhamos Ulisses como símbolo e que sejamos resgatados do esquecimento.

O encontro com Éolo deu a Ulisses a capacidade de discernir entre o bom e o mau. Os ventos que levaram ele até as proximidades de Ítaca foram resultados de um bom discernimento, porém, ao descansar, ao baixar sua guarda por poucos minutos, os maus ventos foram soltos e o fizeram retroceder. Aqui temos duas valiosas lições sobre como devemos trilhar a nossa jornada. Primeiro, devemos aprender a discernir, a reconhecer o que nos engrandece e o que nos limita. Depois, devemos estar vigilantes, atentos, pois no menor descuido esse discernimento pode ser colocado à prova. E quando escolhemos mal, isso nos leva para longe de nossa Ítaca, do nosso destino. Por isso é fundamental que tenhamos dentro de nós este “olho” que nunca dorme, esse “Ulisses” que decidiu permanecer sempre desperto para nunca permitir que nossos princípios sejam quebrados.

 

 

O encontro com Circe nos revela que as dificuldades podem nos presentear com valiosos  ensinamentos. Os momentos ruins existem para que possamos extrair aprendizados, que poderão ser usados em um novo momento de dificuldade. Circe tinha a capacidade de animalizar os homens, mas Ulisses conseguiu vencê-la, pois conseguiu fazer com que o lado humano prevalecesse sobre seu feitiço animalizante. Como recompensa, ele ganha, mais uma vez, uma chave para vencer suas provas futuras. E mais uma vez, como prova, ele precisa enfrentar o desejo, agora na forma dos cantos das sereias.

As sereias encantam os homens e os fazem desviar de sua rota. Na ilha de Calipso ele aprendeu sobre como o desejo pode nublar nossa percepção do tempo, já com as sereias, Ulisses aprendeu sobre como dominar e não ser escravizado pelo desejo. Ao invés de não escutar o canto das sereias, ele se amarrou em um mastro, símbolo de uma vontade vertical, seu dever, seus princípios, para não ceder ao desejo. O que podemos aprender com isso? Que não temos condições, no momento, de calar as sereias. Elas irão cantar, tentarão nos seduzir. Isso não está sob o nosso controle. O que podemos fazer é não ceder a esses desejos. Devemos ter um mastro para nos amarrar, algo que nos lembre e não nos faça ceder frente a tais encantamentos. Pode ser um princípio, um objetivo, um dever ou mesmo um compromisso, algo que nos faça lembrar aonde queremos chegar. O destino de Ulisses não era a ilha das sereias, mas sim Ítaca. E o destino de Ulisses é o destino da humanidade.

Após tanto sofrer, Ulisses enfim reconhece que somente o seu intelecto e suas capacidades físicas não são suficientes para alcançar seus objetivos. É necessário reconhecer a importância dos “deuses”, dessas forças misteriosas que regem tudo o que existe, e também participam de todas as nossas vitórias. Cada cultura dá um nome diferente para isso, mas todo ser humano tem a capacidade de perceber a “divindade” quando se desliga do superficial e se volta para o mais profundo do seu ser. É neste lugar onde Ulisses faz as pazes com Poseidon.

 

 

E assim destinado, após uma longa jornada, ele consegue voltar para Ítaca. Lá habita Penélope, sua contraparte, sua alma, sua essência. Agora, como um ser completo,  depois de aprendidas todas as lições, Ulisses pode voltar a reinar como governante de sua ilha, como governante de si mesmo. Ulisses somos nós mesmos, Ítaca é o nosso destino e a “Odisséia” é a história do homem, do seu regresso de volta para a sua alma, para o seu verdadeiro lar… É a própria evolução humana. Então, que possamos enfrentar esse mar revolto com dignidade e força, extraindo os aprendizados necessários para retornar à nossa casa.

 

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