Precisamos Dançar na Chuva, Urgentemente...

May 14, 2020

 

Talvez o título desse texto pareça loucura, em tempo de luta contra uma síndrome respiratória. Mas a verdade é que, como nos disse Cervantes, precisamos de um louco de vez em quando. Ou como nos escreveu o grandioso Fernando Pessoa:

Sem a loucura que é o homem
Mais do que besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

 

Sim, caros leitores! O que para os tolos é loucura, para os quem têm olhos para ver passa a ser um sonho, um ideal. Afinal, como nos ensinou Platão, a única loucura temível é aquela que é filha da ignorância. Mas, há “loucuras” que são como sonhos a guiar os passos dos despertos. É esse o tipo de loucura que desejamos nesse momento de tempestade entre os homens. A loucura de imaginar que podemos enxergar algo de belo em um espetáculo de feiura. Tal como a flor de lótus que, mesmo entre a lama, germina alva, limpa e pura.

Esses tempos de estadia em casa são resultado de um fracasso... Fracassamos na tentativa de conter um vírus. Mas nada nos impede de transformar esse limão em uma limonada. Tal como fizeram Gene Kelly, Debbie Reynolds e Donald O’Connor no glorioso filme “Cantando na Chuva”. Certamente você conhece a cena mais famosa dessa obra prima do cinema musical. 

 

 

 

Fazemos o convite, então, para conhecer todo o longa. A engraçada e romântica história de Don Lockwood (Gene Kelly), um astro do cinema mudo; Seu fiel amigo, Cosmo Brown (Donald O’Connor); Seu par nos filmes, Lina Lamont (Jean Hagen) e seu par ideal, uma sonhadora atriz iniciante, Kathy Selden (Debbie Reynolds).

O filme se passa no período de transição do cinema mudo para o cinema falado. Don e Lina fazem um casal perfeito: grandes estrelas, aclamados pelo público, e a imprensa frequentemente os descreve como namorados. Embora, por trás das câmeras, Don não seja nada simpático à ideia. Fugindo de fãs, ele conhece Kathy num primeiro encontro que não deixa boas lembranças. Começaria ali uma tensão que justificaria o adágio que diz que o ódio e o amor andam de mãos dadas. A relação dos dois evolui naturalmente durante o filme, para desespero da interesseira Lina Lamont, que faz tudo que é possível para prejudicar Kathy. Mas o amor canta mais alto e ela engata uma relação com Don.

 

 

O casal mais famoso da Monumental Pictures então grava seu primeiro filme falado, e no teste de pré-lançamento, o desastre se anuncia. Os outrora grandes Don Lockwood e Lina Lamont serão os futuros ex-estrelas. Não adaptados à nova realidade, Don quase desiste, convencido de que é uma fraude como ator.

Nessa hora de desespero, choro e falta de perspectivas de futuro, seu grande amigo tem uma ideia genial. No início de suas carreiras, os dois eram cantores e dançarinos, origem que nunca abandonaram de fato. Porque então não ressuscitar o Don Lockwood, transformando “O Cavaleiro Galante”, filme falado fadado ao fracasso, em “O Cavaleiro Dançante”, um musical? Faltavam seis semanas para a estreia do filme, não seria loucura fazer isso? Sim! E por isso mesmo que eles fizeram.... Às vezes precisamos de um pouco de loucura. Havia porém um empecilho: a voz de Lina era terrível, ela não cantava e nem dançava. Cosmo, como sempre, salva o dia sugerindo que Kathy duble Lina. O que ela topa na hora para ajudar a salvar a carreira do seu grande amor. Mas, Don só aceita com uma condição: será uma única vez e depois Kathy seguirá sua carreira de atriz. É claro que Lina não deixará que isso aconteça tão fácil assim. De toda forma, o resultado é um final gracioso como todo o filme.

 

 

Ah! Precisamos de mais filmes assim. Que nos vendam esperança e nos devolvam a alegria. Que nos façam querer arrumar as malas e tentar a vida em Hollywood, uma terra onde tudo é possível para aquele que tenha força de vontade. Não nos tome por ingênuos, lembre-se que foi a promessa de Canaã que levou os judeus a vencerem quarenta anos no deserto.

“Cantando na Chuva” é um filme de 1952, época em que o “american way of life” era invejado mundo afora. Os que não eram comunistas, sonhavam em se tornar a América. Uma terra em que a liberdade e a igualdade forneciam dignidade aos cidadãos. Se é verdade que esses valores talvez não tenham sido plenamente entendidos e integrados pelo povo norte-americano, pelo menos o mundo sabia o que invejar. Mas e hoje? Para que modelo os povos deverão dirigir seus esforços? Qual nação tomaremos como objeto dessa inspiração? Aquela antiquíssima, porém belicosa e assassina de religiões? Ou aquela centralizadora e cerceadora das liberdades individuais? Ou talvez para a desmascarada plutocracia que vende seus filhos em guerras por petróleo?

É disso que se trata este texto. Nesse momento de noite escura, precisamos de imagens que nos guiem de volta à Luz. E a sétima arte, assim como todas as outras, podem exercer um papel fundamental nesse sentido. Fiquemos com o exemplo do filme de Stanley Donen e Gene Kelly. Ao unir uma fotografia magnífica, um enredo sem desperdícios, músicas lindas, um humor pueril, atuações brilhantes e números de dança de tirar o fôlego, eles nos deram uma obra que preenche o coração. Dá vontade de levar a vida sapateando sobre as dificuldades. Dá vontade de voltar a acreditar que é possível ser feliz.

 

 

É que nos dias de hoje, o cinema anda meio sorumbático, meio depressivo. Os grandes títulos ou mostram uma verdade nua e crua, ou exageram nos traços mais escuros dos contornos humanos. É que a arte assumiu um compromisso com a realidade objetiva da matéria. E como essa realidade é feia, desonesta, doente e cinza, o cinema embarcou na onda. Esses filmes são tecnicamente perfeitos, mas suas histórias exigem do telespectador algum grau de maturidade humana, para extrair dessas obras tão sombrias uma indicação sobre que caminho não seguir. 

 

Mas onde estão as obras que nos indicam a estrada de tijolos amarelos que levará a humanidade para a próxima aventura? Precisamos muito desse tipo de alimento para a nossa alma. “Dançando na Chuva” faz isso sem precisar ser panfletário. Só a beleza que ele evoca e nos entrega já nos coloca intuitivamente na direção de nossa essência. E todos os elementos caricaturados no cinema de hoje estão lá, a reprodução da sensualidade feminina; a exposição da ganância presente na alma humana... Todos esses elementos estão presentes, é verdade, mas ao invés de mostrar sua cara desagradável e vulgar, são apresentados de uma forma tão harmônica que não ofende os olhos e nem os ouvidos de quem assiste. Quer exemplos? A cena da dança com a dama de verde é quase um tango de tão sensual. O chefe do estúdio está sempre corrompendo seus princípios por dinheiro, e ninguém dá atenção ao mais completo artista do estúdio, Cosmo Brown, que é cantor, ator, dançarino, roteirista, pianista, maestro, diretor musical, porém sempre fica com papel de coadjuvante. O maior mérito desse longa é nos dar tudo isso num ritmo perfeito e com muitas cenas verdadeiramente lindas. Como não citar a cena da dança com a dama de branco? Não há palavras para descrever, por isso recomendamos: Assista a este filme! Precisamos de mais obras assim urgentemente, precisamos enlouquecer um pouquinho, sonhar com um mundo melhor.

 

Vamos ficar ao lado de Don! Se em nossa caminhada humana, somos surpreendidos com uma intempérie, molhemos o rosto, recuperemos a pureza de nosso coração, aproveitemos o que nos foi destinado e nos alegremos! Quem pode controlar as tempestades que vamos enfrentar ao longo da vida? Devemos aceitar a vida com a alegria de quem tem a oportunidade de experimentar o melhor tempo de todos: o Agora! 

Pois é... Precisamos urgentemente dançar na chuva...

 

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