Os Versos de Ouro de Pitágoras

May 7, 2020

 

 

Em um mundo onde cada vez mais a ausência de moralidade é cultuada e a busca pela liberdade dos instintos e dos desejos egoístas legitima e justifica as nossas condutas sociais, nunca foi tão urgente e necessário a leitura, ou releitura, dos grandes clássicos da humanidade como, por exemplo, “Os Versos de Ouro de Pitágoras”. Não se trata aqui de nostalgia do passado ou de menosprezar a validade das obras atuais, mas sim, de dar importância a um arcabouço cultural que está à nossa disposição, como um legado deixado a todos os que queiram conhecer. Obras como essa, de profundo conteúdo e valores morais, tem a sua relevância por carregar ideias atemporais que transcendem qualquer diferença cultural, justamente por isso, ajudam a várias civilizações humanas ao longo do tempo. Assim, certamente, essa obra pitagórica pode muito nos ensinar a encontrar respostas para as nossas adversidades nos tempos atuais, mas, principalmente, pode nos ajudar a manter de pé a nossa fé e esperança na humanidade.

 

Se partirmos do pressuposto de que a condição humana que todo indivíduo carrega é uma característica da própria espécie, ou seja, todos temos as mesmas necessidades básicas para a sobrevivência física, emocional e mental, chegaremos à conclusão de que, independentemente do tempo histórico que um indivíduo esteja localizado, as suas necessidades são sempre muito semelhantes. Dessa forma, não somos tão diferentes dos homens do passado. Será que, por exemplo, o nosso medo da morte, a nossa necessidade do sustento diário, a necessidade de uma moradia, de uma vivência harmônica em sociedade são características apenas de nosso tempo? As nossas tristezas, os nossos sentimentos de fracassos e de impotência diante de algo desconhecido são mesmo muito diferentes dos dilemas enfrentados pelo homem médio de civilizações como a dos incas, a dos astecas, a dos gregos ou a dos romanos? Na verdade, ressalvada a distância de tempo, percebemos muitas semelhanças. Entretanto, se há algo que pode nos diferenciar deles, não são as perguntas, mas as respostas dadas a essas mesmas questões. Na verdade, nós deveríamos estar numa posição de vantagem, já que a partir das experiências passadas, deveríamos evitar erros desnecessários e economizar energia para focar nos novos desafios, provocando assim um acúmulo de novos conhecimentos para as gerações futuras. Mas não parece que estamos aproveitando o inestimável valor da produção cultural dessas civilizações antigas.

 

Mas, o que são “Os Versos de Ouro de Pitágoras”, a qual estamos dispostos a comentar aqui? Trata-se de um documento de tradição pitagórica, que através de versos revela um dos códigos morais mais importantes da humanidade. De valor incalculável, este texto breve, único e prático, é um mapa preciso do caminho para a sabedoria divina, que se encontra dentro de cada um de nós. É um material atribuído ao filósofo, matemático e astrônomo grego, Pitágoras, que nasceu na ilha de Samos no ano aproximado de 570 a.C. e morreu, provavelmente, em 496 a.C. Sendo uma das escolas de filosofia mais famosas do mundo grego, a escola pitagórica tinha como objetivo formar a vida moral e política do indivíduo que, segundo o filósofo, deveria ser um reflexo da harmonia encontrada na própria Natureza, pois ela é a expressão da obra do Deus criador. Assim, os homens também deveriam encontrar uma forma de se harmonizar com a Natureza para poder expressar esta mesma harmonia divina. Isso aconteceria quando  cada indivíduo que compõe o Estado, ou seja, cada cidadão dentro da sociedade, conduzisse sua vida baseando-se na ética e no uso inteligente do conhecimento, para poder dominar seus vícios e suas debilidades. 

 

 

Os versos de ouro expressam de maneira objetiva os compromissos pitagóricos para com a vida cotidiana, apontando para um caminho de transformação de cada indivíduo, possibilitando que a melhor parte de cada ser humano predomine sobre a violência, os instintos e os impulsos vulgares. Existem várias versões para o texto, uma das mais aceitas é a dos versos a partir do texto de Hierocles de Alexandria, de acordo com a tradução inglesa de N. Rowe de 1707, e hoje adotada pela maior parte dos estudiosos da tradição pitagórica. Entretanto, estamos falando de um documento de mais de 2.500 anos, mas cujo conteúdo ainda é extremamente atual. 

 

Composto por 72 versos, dentro de um formato prático, no ensina como levar uma vida de sabedoria. A preocupação da obra pitagórica é transformar seres humanos instintivos em seres humanos que compreendam a vida de forma mais profunda, e saibam viver para além das simples necessidades instintivas. Em outras palavras, o objetivo é que o indivíduo não fique preso somente aos desejos ligados a segurança, alimentação, sexo e conforto, mas que possa também refletir sobre qual o sentido da Vida, sobre o Bem, a Beleza, a Justiça, os mistérios das Leis da Natureza, e acima de tudo, que possa perceber como a Divindade que se expressa no Todo, também se expressa dentro dele.

 

 

Os Versos de Ouro de Pitágoras pode ser dividido e interpretado a partir de três pontos: primeiro, é preciso querer se comunicar com o Divino por afinidade, por reconhecer e cultivar as qualidades divinas dentro de si. Segundo, precisa preparar-se para estabelecer esse contato interno com o Divino e isso exige o que os filósofos clássicos chamam de purificação, ou seja, deixar de lado todos os elementos egoístas e aproximar-se dos valores que tem o poder de nos unir com toda a Humanidade, daí vem a necessidade de cultivar o gosto pelos valores universais, como a Fraternidade. Por fim, após o reconhecimento da necessidade de comunicar-se com o divino, da purificação dos elementos mais densos e instintivos, é preciso caminhar em busca do aperfeiçoamento, buscar novas formas de vida que valorizem mais a condição humana em detrimento da condição animal que habita em nós. Como diziam os pitagóricos, viver uma ética e uma moral baseada na expressão Divina é compreender o valor das leis universais que ordenam e movimentam todo o Universo. Cabendo ao ser humano compreendê-las, amá-las e participar de forma consciente desse mistério, ou, se preferir, ser arrastado pela força dessas leis e ficar à deriva da vida, sobrevivendo aos seus instintos e desejos animais, sentado à beira da estrada observando a história passar.

 

É necessário acreditar que somos mais que um amontoado de células que produzem sensações, emoções e pensamentos instintivos.  A simples sobrevivência não pode se tornar o fim de nossa existência. Homens como Pitágoras e tantos outros grandes gênios do passado nos deixaram pistas sobre um caminho de vivência humana e valores transcendentais, homens que viveram e morreram por grandes ideias  e nos provaram através dos exemplos de suas próprias vidas que há um mistério a se desvelar no pulsar da existência. Mas é preciso saber ver esse mistério, e ele não se revela aos olhos do materialismo ou do egoísmo.  

 

Existe uma máxima que diz que o indivíduo e a sociedade não nascem prontos, mas se constroem a partir de um processo de educação, baseado num conjunto de valores e virtudes que se encontram expressas em toda a Natureza. Esses valores, de alguma forma, estão de forma latente dentro de cada indivíduo, pois nós também somos parte da Natureza, mas às vezes nos esquecemos disso. É necessário que o ser humano conheça e viva essa possibilidade, e é desse resultado que depende a formação de uma sociedade mais sadia. 

 

Este texto foi um olhar para o passado, para grandes obras de pessoas que já morreram. Mas o importante é que percebamos que a história da Humanidade é a nossa história, então este passado se liga ao nosso presente. As civilizações do passado nos deixaram um valioso legado, agora cabe a nós refletirmos sobre o que queremos deixar para as gerações futuras. Todos alertam para os riscos de, no futuro, não termos mais acesso a recursos como água potável ou uma camada de ozônio. Claro que esses cuidados são importantes, mas quem está se preocupando com o legado moral que deixaremos para as gerações futuras? Portanto, escolhamos o caminho da humanidade iniciado pelos nossos antepassados, e que cada um de nós faça a sua parte para preservar não somente a natureza física, mas também a natureza divina que habita em cada coração humano.

 

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OS VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS

 

 

01. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.
02. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.
03. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.
04. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.
05. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.
06. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.
07. Aproveita seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos.
08. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro.
09. Porque o poder é limitado pela necessidade.
10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões.
11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
12. Não faz junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha.
13. E, sobretudo, respeita a ti mesmo.
14. Pratica a justiça com teus atos e com tuas palavras.
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
16. Mas lembra sempre um fato, o de que a morte virá a todos.
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.
18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for.
19. Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lança sobre os seres humanos.
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível.
21. E lembra que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau.
23. Portanto, não aceita cegamente o que ouves, nem o rejeita de modo precipitado.
24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora.
26. Não deixa que ninguém, com palavras ou atos,
27. Te leve a fazer ou dizer o que não é melhor para ti.
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas.
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
30. Mas faze aquilo que não te trará aflições mais tarde, e que não te causará arrependimento.
31. Não faze nada que sejas incapaz de entender.
32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, tua vida será feliz.
33. Não esquece de modo algum a saúde do corpo.
34. Mas dá a ele alimento com moderação, o exercício necessário e também repouso à tua mente.
35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados.
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
37. Evita todas as coisas que causarão inveja.
38. E não comete exageros. Vive como alguém que sabe o que é honrado e decente.
39. Não age movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas estas coisas.
40. Faze apenas as coisas que não podem ferir-te, e decide antes de fazê-las.
41. Ao deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia.
43. Pergunta: "Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?"
44. Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.
45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Tu deves amá-las de todo o coração.
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina.
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário Sagrado.
48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna.
49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses.
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os mantém em unidade.
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas.
54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar, e nada neste mundo será desconhecido de ti.
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu lado.
57. Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.
58. Este é o peso do destino que cega a humanidade.
59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos intermináveis,
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
62. Oh Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes.
63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia.
64. Porém, tu não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina.
65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles.
66. Se ela comunicar a ti os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as coisas que te recomendo.
67. E ao curar a tua alma a libertarás de todos estes males e sofrimentos.
68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da alma.
69. Avalia bem todas as coisas,
70. Buscando sempre guiar-te pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
71. Assim, quando abandonares teu corpo físico e te elevares no éter.
72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás.

 

 

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