Cultura do Cancelamento

May 7, 2020

 

O que você acha da “cultura do cancelamento”, um novo tipo de boicote que vem ocorrendo nas mídias sociais?

A coisa acontece assim: começa com alguém que tem uma certa influência nas redes sociais, como celebridades, youtuber’s, políticos, ou algo do tipo, expressando acidentalmente alguma opinião questionável ou controversa, ou com algum comportamento em seu passado, que é considerado atualmente como ofensivo, sendo trazido à tona e exposto para todos. Esta causa pode ser várias coisas diferentes, como um comentário que é considerado “racista”, “machista” ou “anti-progressista”, uma piada de mal gosto, um comportamento desrespeitoso… E isso pode ter acontecido ontem ou há anos atrás, quando a pessoa ainda era adolescente, não importa muito. Esta é a ignição, e a partir daí a retaliação começa: geralmente as pessoas mais politicamente corretas irão condenar esta pessoa para demonstrar que não compartilham de tais opiniões ou comportamentos. Então uma massa de pessoas “compra” a crítica e uma onda de boicote começa, e todos os “justiceiros” ficam bem atentos para atacar também qualquer outra pessoa ou marca que se negue a cortar relações com este novo “pária” social. O objetivo é bani-lo do círculo midiático, levando-o ao declínio na carreira. Se o movimento ganhar força mesmo, o cancelado perde seguidores, contratos, patrocínios, amigos, inscritos em suas redes sociais, e vai aos poucos sendo deletado até cair no ostracismo.

 

 

Você concorda com isso? Como fica o direito à defesa de quem está sendo cancelado? Você acha que esse tipo comportamento é progressivo ou é um retrocesso da sociedade atual?

Esse fenômeno começou a ganhar destaque a partir do ocorrido com o youtuber nova iorquino James Charles. Aos dezenove anos, ele se tornou uma das personalidades mais influentes das redes sociais com 16 milhões de inscritos no YouTube, e quase o mesmo número no instagram, onde promovia uma linha de produtos de beleza. Em 2019, ele fez um anúncio no instagram de um suplemento de uma marca concorrente e aí, sentindo-se traídos, seus sócios iniciaram um movimento de cancelamento. Em questão de dias, milhões de pessoas deixaram de segui-lo, diminuindo sensivelmente sua influência nas redes.

 

 

Experiências semelhante à de James Charles foram se replicando por todos os Estados Unidos, até ganhar o mundo inteiro. Milhares de youtuber's, artistas, comediantes, de todos os gêneros, têm vivido o pesadelo da "cancel culture", como vem sendo chamada mundialmente. Inclusive, esse termo foi eleito como a palavra do ano pelo Dicionário Macquarie, que seleciona todos os anos os termos que mais se destacam na influência do comportamento humano. 

Escândalos sexuais, piadas homofóbicas, racistas, são as causas mais comuns do boicote do cancelamento. No Brasil, a cantora Anitta sofreu uma onda de cancelamento por ter convidado para o seu palco o artista Nego do Borel, mesmo após comentários controversos dele em relação à travesti Luisa Marilac. O apoio de Anitta ao suposto “transfóbico” despertou uma reação da comunidade LGBT, que se sentiu traída e iniciou o seu “cancelamento”. O fenômeno já ocorreu também com José Mayer, Alessandra Negrini, Silvio Santos e com participantes do reality show BBB20, da Rede Globo de Televisão.

Funciona como uma espécie de tribunal da internet, onde acusação, julgamento, sentença e execução da pena são realizadas de maneira massiva, de uma só vez, sem razoabilidade, pela força do momento, e qualquer tentativa de defesa do réu também é condenada com a mesma pena. Isso, embora virtual, funciona como uma espécie de linchamento público. Essa postura é primitiva e cruel. Hoje se limita a diminuição de likes, de inscritos, de seguidores, mas se naturalizamos essa cultura anárquica, ou sem governo, a que ponto chegaremos amanhã?

O que é mais preocupante na cultura do cancelamento não são os efeitos que vem surtindo hoje para as vítimas, pois tais consequências, embora inoportunas para os famosos, muitas vezes pode ser considerada simplesmente “a volta do pêndulo”: da mesma forma explosiva que a pessoa ganha milhões de fãs e faz muito dinheiro com isso, tudo se esvai como se fosse um forte vento que passou, mas que não pôde ser segurado. E, apesar de serem a minoria dos casos de cancelamento, em alguns casos, tais celebridades realmente cometem atos repugnantes e inadmissíveis. Apesar disso tudo, o que é mais preocupante é a mentalidade que sutilmente vem sendo alimentada por trás disso. A mentalidade de que podemos punir por vingança, por conta própria, alheio ao sistema de direito instituído, sem a figura do Estado. Por trás disso, está a perigosa cultura do linchamento, a cultura das penas cruéis, do apedrejamento, que numa época muito primitiva eram aplicadas sem direito a advogados, nem juízes.

Isso aponta para um retrocesso civilizatório, é como se retrocedêssemos a um período histórico anterior ao surgimento de instituições que surgiram à custa de muita elaboração racional, e muitas dores coletivas. Instituições como o Ministério Público, como as cortes de justiça, e a própria atividade advocatícia.

 

 

Subjacente a essa prática, também há outro aspecto perigoso que é a atitude coletiva desprovida de um governo. A cultura do cancelamento é massiva, todo mundo vai entrando na onda porque é divertido, entram no boicote pelo mero prazer da vingança barata. Isso vai reforçando na psique coletiva uma sensação de “juiz autoritário”, que tem o direito de julgar, condenar e executar a pena de qualquer um que cometa deslizes. 

Muitos podem exaltar estes movimentos como um grande valor democrático. Mas imagina uma família onde as decisões são tomadas pela maioria. E se a maioria for de filhos na idade infantil? Como ficariam as decisões referente a finanças, alimentação, pagamento de contas, etc.? A ideia de um Estado e de um governante não surgiu por acaso. Surgiram por uma necessidade de condução inteligente das condições da maioria. Surgiu para atender à necessidade de proteção da sociedade humana frente aos riscos de sua própria extinção. Nossas decisões, sobretudo quando dizem respeito à aplicação de alguma punição criminal, devem ser submetidas ao Estado, que representa a coletividade. Ainda que aqueles que simbolizam essa força do Estado nos dias atuais não sejam lá grandes exemplos morais, pode ter certeza que seria ainda pior sem ninguém para governar. É isso que nos faz ser uma civilização. É isso que nos faz habitantes de uma cidade. Sem isso, retornamos a uma nova idade média, para não dizer uma nova idade das cavernas.  

 E ainda mais importante que tudo isso, antes de criticarmos e atacarmos os erros dos outros, é uma obrigação moral trabalhar sobre os próprios defeitos.Todos se lembram do Mestre que protegeu a prostituta dizendo a frase: “Quem nunca errou, que atire a primeira pedra!”. Esta situação deve ser refletida por cada um de nós, para respondermos diante de nossa própria consciência a seguinte questão: “Eu sou daqueles que joga a pedra, ou daqueles que vai para a casa para repensar os próprios defeitos?”. 

 

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