A Arte Japonesa

February 25, 2020

 

 

 

 

 A cultura asiática, de maneira geral, é vista como algo muito diferente e distante da nossa cultura ocidental. Mesmo com a globalização e o aumento da circulação de informações, o que conhecemos ainda é muito pouco sobre esses povos, as suas culturas e os seus significados. Mas, apesar da nossa pouca compreensão, é de consenso de todos que as culturas orientais, são muito ricas e profundas no quesito de experiência e valores humanos. 

 

A cultura japonesa, por exemplo, com toda a sua ancestralidade, mesmo conhecida no mundo moderno por suas inovações tecnológicas, cultiva o seu folclore de samurais, templos e culinária tradicional, que encanta há várias gerações. E, são os seus elementos tradicionais que mais impressionam o mundo todo, seja pelas suas sutilezas ou pelos símbolos milenares que carregam em si. Não é pretensão nossa discorrer sobre todas as formas e expressões artísticas japonesas, mas refletir sobre alguns aspectos que permeiam alguns desses fazeres artísticos, que muito nos impressionam pela delicadeza, sofisticação e precisão. 

 

 

 

A riqueza dos detalhes e a harmonia com que os artistas desses povos envolvem as suas cerimônias, seus rituais e ornamentações revelam obras que roçam a perfeição de tão precisas que são, desde as suas dimensões até a sua estética. Por outro lado, revelam um caminho que exige do artista o desenvolvimento constante de diversas virtudes para o florescimento do senso estético apropriado a cada obra. A arte de transformar a natureza, imprimindo uma lei que ordena e revela a harmonia e a beleza dos objetos, apresentando o potencial de vida que existe por trás de cada um, é uma especialidade dos japoneses. Desde a técnica dos bonsais, ou a cerimônia do chá, até um movimento das artes marciais, a busca pelo belo é notável. O senso estético dos japoneses é um aspecto muito evidente no dia a dia da maior parte da população, não é algo restrito ao meio artístico, mas um estilo filosófico de existir, se inserir e interagir com a natureza. 

 

Assim, desde a arquitetura de uma casa, até a forma de tomar chá em uma família, revela os elementos de uma cultura que tem como um dos princípios o culto pela harmonia e a expressão da beleza. Um exemplo disso é a técnica artística da arte de encaixe em madeira, o Yosegi-zaiku (寄木細工), uma forma de artesanato tradicional japonês que surgiu durante o Período Edo e se tornou conhecido e respeitado em todo o mundo. Conhecemos essa arte como a “Marchetaria”, uma espécie de mosaico de madeira feito com o uso de cores e texturas naturais, que é usado como revestimento e decoração. Essa sofisticada arte se torna ainda mais interessante quando vemos construções centenárias como o templo Kiyomizu-Dera, que tem mais de 380 anos e ainda permanece firme e forte sem o uso de pregos. Apenas peças de madeira milimetricamente projetadas, cortadas e encaixadas garantem a segurança estrutural da construção. O grau de refinamento dessas técnicas demandam um alto nível de precisão e dedicação que requer do artesão um aprimoramento lento, conquistado através de longos anos de muita paciência, disciplina e constância.

 

 

 

 

Segundo algumas correntes de estudos, essas técnicas passadas de geração em geração datam do período Heian (794 a 1185), mas foi só em 1984, que a Lei de Promoção da Indústria do Artesanato Tradicional (Densan’hô) reconheceu a marchetaria como artesanato tradicional do Japão. Hoje as cidades de Odawara e Hakone, são as mais conhecidas pela produção de yosegi-zaiku devido a diversidade de madeira encontrada na província de Kanagawa, onde estão localizadas. Uma outra forma de arte japonesa que é importante ressaltar aqui é o cultivo dos bonsais, que significa “árvore em pote ou bandeja” e tem a sua origem nos termos chineses “pun-sai” ou “pent-sai”. Acredita-se que essa arte de miniaturizar plantas tenha surgido na China e derive de uma outra técnica conhecida como o penjing, que criava paisagens em miniatura, com rochas, musgos, árvores, etc.

 

 

 

As primeiras referências sobre o penjing datam do século II a.C. Através dos monges budistas, e durante centenas de anos essa arte esteve restrita apenas aos nobres e à alta sociedade japonesa. Expressar a beleza em alguns centímetros, mantendo as características originais de qualquer planta, leva os artistas a um desafio constante para encontrar a justa medida e a ordem que expressarão um Ideal de Beleza através dos bonsais. Como resultado, temos a reprodução de qualquer planta, em forma de verdadeiras obras de artes em jardins decorativos para qualquer ambiente. 

 

Uma outra expressão tradicional é a cerimônia do chá, ou “chanoyu”, conhecida como a arte de servir e beber o “matcha”. Quando o Zen Budismo foi introduzido no solo japonês, no século XII, também chegava o matcha (chá verde em pó). Utilizado pelos monges para manterem-se acordados durante suas meditações noturnas, esse hábito acabou se transformando em filosofia de vida através do “Chado” (Caminho do Chá), materializado no ritual “Chanoyu”, ou seja, a Cerimônia de Chá. Os princípios básicos do Caminho do chá são: Harmonia, Respeito, Pureza e Tranquilidade. 

 

 

Cabe aos participantes criar um ambiente, através de um ritual preciso e de total integração, onde esses princípios sejam sentidos e vividos intensamente por todos, em um momento único. O objetivo é a purificação da alma do homem, integrando-a com a natureza.  Simbolicamente, essa cerimônia expressa a materialização da intuição do povo japonês pelo reconhecimento que a verdadeira beleza está na modéstia e na simplicidade. Como foi falado anteriormente, a essência do “chanoyu” dificilmente pode ser expressa por palavras.

 

Com a difusão da Cerimônia do Chá, a partir do século XVI, foi criado o estilo de arranjo “ikebana” próprio para os ambientes em que era realizada essa cerimônia. O Ikebana é a arte da composição floral com as tradições e a filosofia japonesa. Esta arte do arranjo floral guarda em sua essência o costume de colocar as flores perpendicularmente à sua base. Muitos estudiosos acreditam que a própria origem do ikebana está ligada ao “kuge”, o ato de colocar flores no altar de Buda. A ideia que está na essência desta prática é que, mesmo um simples arranjo de flores, pode ser feito com senso de perfeição, já que será oferecido ao divino. Desta forma, a arte atinge o seu sentido mais sagrado.

 

Diante do que foi exposto, fica claro que independente de qual seja a expressão artística japonesa que observemos, podemos perceber que a dimensão estética desse povo tem suas raízes num profundo contato com natureza e numa busca filosófica de canalizar os Ideais Sagrados.

 

 

 

Princípios como Harmonia, Respeito e Tranquilidade de alma são percebidos de forma reiterada através de suas obras. A busca pela harmonia com os homens e com a natureza através de uma interação respeitosa e sincera de coração, ajuda o indivíduo a reconhecer seus limites diante do Universo, sem perder de vista a sua dignidade inata como ser humano. Esse caminho torna a natureza como uma força aliada, e não subjugada, potencializando o poder de criação do homem. Nos parece que os japoneses já sabem isso há séculos, que possamos aprender isso também!

 

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