Biblioteca de Alexandria

February 11, 2020

Imagem: Book Clubbish

 

No seu tempo, o maior centro de conhecimento do mundo, não há quem nunca tenha ouvido falar da Biblioteca de Alexandria, seja por sua coleção monumental de papiros, seja pelo mistério de sua destruição. A bem da verdade é que até hoje percebemos sua influência na formação das nossas Universidades, nas grandes bibliotecas ao redor do mundo e mesmo no sonho de catalogar toda a tradição de conhecimento da história da humanidade.

Apesar de não ter sido a primeira biblioteca do gênero, sendo parte de uma longa tradição de bibliotecas que existiam tanto na Grécia Antiga quanto no Oriente Próximo, na Biblioteca de Alexandria se encontravam papiros documentando toda uma tradição humana em busca de entender melhor a vida, a natureza, o cosmos. Lá podiamos encontrar a arte de viver de grandes sábios da humanidade.

 

 

Imagem: O Mouseion e a Biblioteca na parte inferior e o Farol de Alexandria na superior. Fonte: Ancient Ports.

 

Localizada no coração da cidade de Alexandria, próximo ao mar mediterrâneo, a escola ficava de frente para o famoso Farol que outrora era uma das sete maravilhas do mundo. Foi durante o reinado de Ptolomeu II, século III a.C, quando surgiu a ideia de sua criação, muitos anos antes de sua construção. O seu idealizador foi Demétrio de Faleros, um estadista ateniense exilado, que assim como Alexandre Magno, se inspirava nas idéias de Aristóteles e buscava difundir a cultura grega helenística pelo mundo. 

Não se sabe exatamente quantos rolos de papiros e codex a Biblioteca de Alexandria chegou a ter em seu acervo, mas estima-se entre trinta mil e setecentos mil volumes literários, acadêmicos e religiosos, servindo não só como centro de saber mas também como uma demonstração do poder dos governantes da ėpoca.

Os ptolemaicos pretendiam que a Biblioteca reunisse o conhecimento de "todos os povos da terra”, e buscaram expandir sua coleção. Segundo Cláudio Galeno, um decreto de Ptolemeu II determinou que todo livro que se encontrasse em um navio aportado em Alexandria deveria ser levado para a Biblioteca, onde ele seria copiado por escribas oficiais. As cópias eram entregues aos proprietários e os textos originais eram mantidos na Biblioteca, com uma anotação "dos barcos".

 

Imagem: Sábios na Biblioteca de Alexandria Fonte: North Wind Picture Archives

 

Como centro de estudos e investigação, muitos sábios desenvolveram suas ideias entre suas paredes, somente poucas dessas ideias conhecemos hoje por diversas fontes históricas, pois muitos papiros se perderam nos diversos incêndios e na sua destruição. Zenódoto de Éfeso, que padronizou os textos dos poemas homéricos; Calímaco, que escreveu os Pínakes, provavelmente o primeiro catálogo de biblioteca do mundo; Apolônio de Rodes, que compôs o poema épico As Argonáuticas; Eratóstenes de Cirene, que calculou pela primeira vez a circunferência da Terra; Aristófanes de Bizâncio, que inventou o sistema de diacríticos gregos e foi o primeiro a dividir textos poéticos em linhas; Aristarco que defendia que a Terra orbitava o Sol, conhecimento esse que permaneceria perdido até sua redescoberta por Nicolau Copérnico e Galileu Galilei; as obras em que o engenheiro Heron de Alexandria estabelece as bases para a criação de turbinas e motores, antecipando-se em alguns casos até a Idade Moderna. Além deles, existem referências também a Arquimedes, Euclides e Hipátia.

 

Imagem: Mouseion de Alexandria. Fonte: Domínio Público

 

Sabe-se que a Biblioteca foi construída no complexo palaciano de Alexandria, no estilo do Liceu de Atenas de Aristóteles.  O local escolhido para a sua construção era próximo ao Mouseion de Alexandria (em grego: Μουσεῖον – trad.: “templo das Musas; instituição das Musas”), de onde vem a palavra Museu, instituição à qual a Biblioteca serviria. A arquitetura da Biblioteca não é conhecida, mas já se sabe, através de fontes históricas, que a Biblioteca de Pérgamo, construída algumas décadas mais tarde, teria copiado sua planta. Fontes antigas descrevem a Biblioteca de Alexandria como contendo colunas gregas, passeios, uma sala coletiva para refeições, uma sala de leitura, salas de reuniões, jardins e salas de aula, um modelo que a aproximaria de um atual campus universitário. Um salão continha prateleiras para as coleções de rolos de papiro (em grego antigo: βιβλίον, transl.: biblíon), e era conhecido como a biblioteca em si (em grego antigo: βιβλιοθῆκαι, transl.: bibliothēkai). Segundo o historiador Hecateu de Abdera, que a visitou provavelmente em sua fase inicial, uma inscrição acima das prateleiras dizia "O lugar da cura da alma" (em grego antigo: ψυχῆς ἰατρείον, transl.: psychés iatreíon).

 

Imagem: Domínio Público 

 

Embora atualmente pouco se saiba da Biblioteca, sobre o Mouseion de Alexandria sobreviveram mais relatos, e sabe-se que ele funcionava como uma instituição de pesquisa, embora oficialmente fosse uma instituição religiosa administrada por um sacerdote nomeado pelo rei, da mesma maneira que sacerdotes administravam outros templos. Além de colecionar obras do passado na Biblioteca, o Mouseion também serviu de lar para uma série de estudiosos, poetas, filósofos e pesquisadores internacionais que, de acordo com o geógrafo grego Estrabão no século I a.C., recebiam um grande salário, comida e alojamento gratuitos e isenção de impostos. A ideia era que, se os estudiosos estivessem libertos dos encargos da vida cotidiana, eles seriam capazes de dedicar mais tempo à pesquisa e a busca da sabedoria. Estrabão chamou o grupo de estudiosos que viviam no Mouseion de "comunidade" (em grego antigo: σύνοδος, transl.: sínodos), e em 283 a.C. esse grupo pode ter sido composto por trinta à cinquenta eruditos.

 

Imagem: Mouseion de Alexandria Fonte: Beautiful Global

 

O Mouseion continha numerosas salas de aula, nas quais se esperava que os acadêmicos, ao menos ocasionalmente, ensinassem a alunos; um grande refeitório circular, com um teto alto e abobadado, no qual alunos e pesquisadores faziam refeições comunais; um santuário dedicado às Musas, que era o mouseion propriamente dito e o local que os pesquisadores visitavam em busca de inspiração artística, científica e filosófica, além de um lugar para passeio, uma galeria e paredes com pinturas coloridas; e provavelmente jardins e um observatório.

A partir de meados do século II a.C. o domínio ptolemaico no Egito conheceu crescente instabilidade. Confrontados com uma progressiva inquietação social e outros grandes problemas políticos e econômicos, os governantes ptolemaicos posteriores não dedicaram à Biblioteca e ao Mouseion a mesma atenção dos seus antecessores. E o que muitos historiadores acreditam é que ela foi aos poucos entrando em decadência, apesar de ainda hoje se acreditar que um incêndio a teria destruído. 

 

 

Imagem: Incêndio em Alexandria Fonte: Literary hub

 

A Biblioteca, ou parte de sua coleção, foi acidentalmente queimada por Júlio César em 48 a.C., mas algumas fontes indicam que ela sobreviveu ou foi reconstruída pouco depois. Sob controle romano, ela perdeu vitalidade devido à falta de financiamento e apoio, e a partir de 260 d.C. não se tem notícia de sábios vinculados a ela. Entre 270 e 275 d.C. a cidade de Alexandria passou por conflitos entre os cristãos, judeus e pagãos que provavelmente destruíram o que restava da Biblioteca.

 

Imagem: Atual Biblioteca de Alexandria de frente pra Cidadela Qaitbay, onde foi encontrado resquícios do antigo Farol, e para o Mar Mediterrâneo. Fonte: Bibliotheca de Alexandria.

 

Hoje não se sabe ao certo sua localização, mas nas proximidades de resquícios encontrados do antigo farol, de frente para o mar mediterrâneo, uma nova Biblioteca foi construída. Concluída em 2002, a Biblioteca Alexandrina atual é a maior do Egito e referência no Norte da África. Ela funciona como uma moderna biblioteca e centro cultural. No local estão guardados dez mil livros raros, cem mil manuscritos, 300 mil títulos de publicações periódicas, 200 mil cassetes áudio e 50 mil vídeos. No total podem trabalhar na Biblioteca de Alexandria cerca de 3500 investigadores, que têm ao dispor 200 salas de estudos.

 

A Biblioteca foi mais que um repositório de obras, e durante séculos constituiu um notável polo de atividades em busca da sabedoria. Ainda hoje, símbolo de uma grande aspiração humana, a busca pelo conhecimento como um norte que nos dá respostas para a vida, a sua influência pode ser sentida em todo o mundo, não apenas por meio da valorização do conhecimento, mas também por meio do trabalho de seus acadêmicos em numerosas áreas do saber. Ideias investigadas pela comunidade da Biblioteca de Alexandria continuam a influenciar as ciências, a literatura e a filosofia nos mostrando que não precisamos reinventar a roda. Podemos aprender com a tradição da humanidade, para responder a nossas questões atuais e construir um mundo melhor no futuro.

 

 

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