A Lealdade

December 10, 2019

 

 

 

O vídeo que você está vendo aí no post só tem três minutos e aparentemente trata de um joguinho bobo, em que um canal de TV oferece uma quantia alta em dinheiro e alguns bens para que torcedores fiéis mudem de time, mas traz uma questão de fundo muito preciosa e muito cara à filosofia: lealdade. Algo vibra dentro de nós quando estamos diante de uma atitude leal. Por que isso nos encanta? Por que vibramos com isso?

Precisamos, com urgência, refletir sobre lealdade. Vivemos um momento crucial na humanidade, em que as relações estão mais que apodrecidas. A insegurança e a desconfiança em todos os campos da sociedade humana atingiram patamares muito altos. Quando um adolescente começa a frequentar alguma instituição, do tipo igreja, movimento cultural, grupo de estudo, etc., os pais já ficam desconfiados, pois a insegurança está muito grande.

 

Vivemos uma enorme insegurança nas relações internacionais, em que uma corrida bélica a nível nuclear ameaça o futuro de toda a humanidade. Por outro lado, dentro dos principais países do mundo, seus sistemas internos de governo estão corroídos por grandes escândalos de corrupção, fraudes e vícios de toda a forma. Até as instituições religiosas estão apodrecidas pela corrupção, pelos desvios de conduta, pela satisfação de micro interesses de uma pessoa ou de um grupo. O mercado, os esportes, os sistemas de educação, todos os campos estão tomados pela desconfiança, pela corrupção e pela imoralidade. A civilização ocidental do nosso tempo apresenta rachaduras e no centro dessa quebra está a questão crucial da lealdade entre os homens. Convidamos você a pensar um pouco sobre isso a partir da filosofia antiga e das tradições.

 

A palavra lealdade vem do vocábulo latino legalis, equivalente a “legal” em língua portuguesa, que é um adjetivo para algo que tem a ver com as leis. Assim, o sentido original e profundo de lealdade é a relação entre o homem e as leis. De que modo lidamos com as leis? Essa é a questão de fundo do tema “lealdade”.

                                        (Créditos: Mulher Magnética)

 

Que são leis para a filosofia antiga?

Hoje, quando falamos de leis somos levados a pensar sobre os sistemas de leis positivas, ou seja, aquelas normas legisladas em alguma casa legislativa, câmara municipal, assembleia legislativa, câmara dos deputados ou senado federal. E aí a decepção é enorme, porque a maioria das leis que emanam dessas casas estão ligadas ao poder econômico ou à estruturação burocrática do Estado. Carregamos um pesado emaranhado de leis, decretos, resoluções, medidas provisórias, etc., sobre tributação, fiscalização, juros bancários e outras demandas correlatas à vida econômica e financeira. A condução desses assuntos foi virando uma complexidade de determinações das mais diversas, de modo que quanto mais ameaça de corrupção, mais sistemas de controle legal vão sendo criados e isso não tem limite.

 

A filosofia antiga e as tradições quando falavam de lei, referiam-se a algo muito diferente disso. Para a tradição egípcia, por exemplo, tal como é retratada no livro O Caibalion, o microcosmo é regido por leis que são correspondentes às leis que regem o macrocosmo. Então, nessa chave, leis são ordens que regem todo o Universo e que se refletem, a partir de um princípio de correspondência, em todos os aspectos da realidade, desde uma explosão cósmica de uma estrela, até um nascimento individual de uma criança ou ao último gesto que você praticou no último segundo. Tudo está albergado por leis Universais e transcendentais. O genoma humano, a dinâmica das partículas subatômicas, a linguagem, as palavras, os pensamentos, os sentimentos e as ações. Tudo tem uma correlação inexorável com um código invisível e misterioso de leis que existem no Universo. Nesse sentido, lealdade para as tradições pode ser traduzida como uma ligação entre o homem e essas leis. 

 

Quando sou desleal com alguém ou comigo mesmo entro no contra fluxo do Universo. Por mais simples que seja a ação, se estiver infectada por deslealdade contraria essas leis universais, como pagar uma propina, ou estacionar indevidamente numa vaga de idoso ou deficiente. Caminhar na injustiça é caminhar na contramão de toda a realidade. Não somos seres amorfos, aleatórios, somos regidos por leis. O pulsar dos nossos corações, o fluxo sanguíneo pelo sistema de veias e artérias, os movimentos sistólicos e diastólicos, tudo está conformado a um sistema invisível de leis e o sentido sagrado e profundo de lealdade é este: ser leal é estar em harmonia com as leis do Universo. Por isso algo em nós vibra diante da lealdade, porque é o que somos em essência. Somos essas leis transcendentais em alguma medida. Vibramos diante da lealdade como vibramos diante de uma orquestra executando uma sinfonia. 

 (Créditos: Computerworld)

 

Palpita em nós um impulso para algo maior, não nos conformamos com o simples fato de existir. A mera satisfação das necessidades básicas não basta, algo em nós lateja por algo que seja maior que nós mesmos. Lealdade é estar em conexão com esse algo maior, é essa conformação com as leis do Universo. O filósofo Immanuel Kant dizia: “duas coisas me enchem o espírito de admiração e de reverência sempre nova e crescente, quanto mais frequente e longamente o pensamento nelas se detém: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”.

 

A modernidade aos poucos foi se afastando dessa perspectiva, e fomos nos tornando cada vez mais técnicos, mais ligados a coisas. Nossos sonhos e nossas realizações estão sempre associadas a conquistas materiais, do tipo comprar aquele iphone, ou aquele notebook de última geração, ou um carro importado, etc., e assim, passamos a desconfiar de tudo que não podemos experimentar em laboratórios. Nossas leis também foram se positivando na mesma proporção, e chegamos ao paroxismo desse movimento. Nossas leis são como medidas para apagar incêndios. Nosso divórcio com a moral transcendental nos lançou em um pântano de transgressões, de violações graves às leis invisíveis, e nos encontramos hoje chafurdados nas consequências desse paradigma, sendo nossas leis apenas medidas de urgência para conter essas consequências.

                                     (Créditos: Mensagens de amor)

 

No livro A República, de Platão, onde é apresentado um paradigma de sociedade harmônica com as leis universais, há um momento em que se chega à conclusão de que em uma sociedade, quanto mais distante se está desse ideal, mais leis humanas terão que ser produzidas e quanto mais próximo, menos dessas leis serão precisas. 

 

Propomos aqui um novo paradigma de lealdade. Propomos uma lealdade à maneira clássica, uma lealdade consistente na harmonização do homem com as leis invisíveis e universais. Aquelas de que trata o Caibailion e a respeito das quais referia-se Kant como as que lhe “enchiam o espírito de admiração e reverência”. Não encontraremos essas leis em casas legislativas, nem em compêndios jurídicos. Essas leis se confundem com o nosso próprio ser, intuímo-las à medida que nos propomos vivê-las. Não são intelectivas são vivenciais. Despertemo-las e vivemo-las por um mundo novo e melhor e por um homem novo e melhor.

 

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