Independência, ou morte?

September 5, 2019

 

Em toda a história da humanidade, o homem sempre reconheceu a legitimidade da busca pela Liberdade. Não há povo que não tenha sentido o dissabor da vassalagem, da dominação. E por isso mesmo, buscar a liberdade sempre foi o objetivo de todos. Muitos dos heróis patriotas foram libertadores em seus países. E ainda hoje, há aqueles que lutam pelo direito do seu povo de se afirmar como nação. 

                                        (Créditos: Curiosidades da História)

 

 (Créditos: Wikipédia)

 

 

Conosco, não foi diferente. Em 07 de setembro de 1822, o príncipe regente do então Reino Unido de Portugal, anunciou o famoso grito às margens do Rio Ipiranga: “Independência, ou morte!”. Pedro Américo, famoso pintor paraibano, 66 anos depois, imortalizaria a cena com muitas licenças poéticas. Seu quadro traria um Dom Pedro napoleônico, cavalgando em um belo alazão, com traje de gala, rodeado por um regimento pronto ao combate, em um monte sobre o Rio Ipiranga, que decorava a postura triunfante de um novo libertador e protetor das terras brasileiras. 

 

Atualmente, muitos historiadores pintam um quadro bem diferente. Dizem sobre o movimento emancipacionista que, apesar de ter enfrentado batalhas e mortes,  foi um arranjo político que queria mudar para continuar do jeito que estava. A liberdade política foi paga com dois milhões de libras esterlinas e um tratado econômico intermediado pela Inglaterra, que acabou sendo muito vantajoso para as terras da rainha. O preço da independência foi a nossa liberdade econômica. Acresça-se a isso, o fato de que o novo país não comportava a liberdade para todos os seus filhos: milhares de negros escravizados continuariam amarrados ao tronco. E, por fim, a liberdade de voto era limitada aos homens com renda de cem mil réis.

 

 (Créditos: Gazeta do Povo)

 

 

Ah! Mas, de que nos serve saber que o nosso patrício-mor, no momento do famoso grito, estava viajando numa nada elegante mula, e que sofria de fortes diarréias? Ou que o rio era um córrego que continua até hoje recebendo a sujeira, agora de fontes não tão nobres? Para que pintar um quadro tão realisticamente feio? Que tipo de nação pode libertar-se de seus próprios grilhões internos, sem um mito, um símbolo inspirador? Não entenderíamos o tamanho de Roma, por exemplo, se não conhecêssemos as ideias que inspiraram aqueles homens a construir um império! Teriam forjado um exército tão magnânimo, se não acreditassem que sua civilização era filha do deus Marte? E o que falar dos egípcios então? Teríamos Vale dos Reis, as pirâmides grandiloquentes e tantos avanços científicos sem a mística religiosa que fazia a todos no império servidores da deusa da Justiça, Maat? E recentemente, como não falar dos verdadeiros mitos que nossos irmãos americanos do norte alimentaram acerca das figuras de Lincoln, Roosevelt e tantos outros líderes que geraram um patriotismo exacerbado e que estão no sopé do sucesso imperialista do Tio Sam? Definitivamente, um povo sem heróis é um povo sem coragem. Um povo sem mitos, é um povo sem identidade. Frequentemente, vemos nossa imprensa e nossos estudiosos desmistificarem figuras emblemáticas com um prazer quase sádico. Tudo isso em nome de uma “verdade” que, se por um lado informa a mente, por outro deforma o caráter. Com quem os de hoje aprenderão a serem os de amanhã, senão com os de ontem? Mas, a eles dissemos que ontem não tivemos um sonho inspirador, mas um pesadelo deplorável. O que será que eles construirão no porvir, então? Nos perguntamos, como uma nação pleiteará um lugar à mesa dos adultos, sem que possa evocar seus heróis? 

 

 (Créditos: Obvious) 

 

 

Não se trata de mover os fatos para debaixo do tapete, mas de transmitir ao espírito do povo aquilo que de fato pode libertá-lo: Um Ideal de virtudes! Ou será que nosso imperador moreno não teve que ter o peito estufado de alguma coragem para colher o fruto maduro? Será que não coube a ele alguma nobreza para, tempos depois, reclamar o trono de Portugal e deixar seu pequeno filho sem esperança de voltar a vê-lo? E, mesmo quando venceu seus inimigos revoltosos, não há nisso um traço de inteligência militar e política? Mas, nosso velho e conhecido complexo de vira-latas late tão alto que ficamos surdos a qualquer tipo de heroísmo brasileiro. 

Imaginemos gerações de brasileiros educados para imitarem a coragem de um Frei Caneca, a generosidade de um Dom Helder, a engenhosidade de um Abreu e Lima. Jovens que pudessem se inspirar na fidelidade de Joaquim Nabuco ao seu ideal de liberdade e igualdade. Ou na força de vontade de Luis Gama. Vêem? Heróis não nos faltam. Então, por que nos faltam mitos? Por que o Brasil parece navegar pela história como um barco à deriva e não com uma nau que sabe qual o horizonte para que se dirige? 

Preferimos o quadro de Pedro Américo. Aos que nos criticam de ingênuos e românticos, reflitam se maior ingenuidade não é acreditar que encontraram a “verdade histórica”, ao identificar os defeitos de um herói, e pensar que isso é uma visão livre de influências ideológicas. O próprio pessimismo e a crença de que o Ser Humano não pode ser grandioso, já é uma ideologia que influencia a mente de muitos pesquisadores contemporâneos.

 

Hoje se pensa que os mitos vão no sentido oposto da ciência histórica… Não se pode estar mais errado. No caso de nosso primeiro imperador, hoje se fala das suas falhas para depreciar seus feitos. E realmente existiu um Pedro de Alcântara que, pelo que tudo indica, não era um marido fiel e possuía muitos defeitos como qualquer ser humano. Enfim… Esse homem já está morto e sepultado junto com seus defeitos. No dia 7 de Setembro, não nos interessa a vida deste homem, o que buscamos resgatar é o mito de Dom Pedro I, “O Rei Soldado”, “O Libertador”. É este símbolo que deve ser mantido vivo dentro de cada coração brasileiro, do herói que, junto a José de Bonifácio e tantos outros grandes nomes, sonharam um Brasil grandiosos. E em nome deste ideal de nação, entregaram as suas vidas. Nós devemos encarnar este mesmo espírito para sermos os seus continuadores. Como dissemos anteriormente, os mitos e os fatos históricos não são antagônicos. Enquanto um trata da realidade objetiva do passado, o outro trata da realidade subjetiva dos grandes sonhos e dos grandes Ideais que iluminam um povo. Por isso, somente quem conhece os mitos de uma nação, tem alguma chance de conhecer a sua história.

 

Sejamos mais Quixotes e menos Sanchos. Vejamos os gigantes e não os moinhos de vento. Afinal, a liberdade não é um pedaço de pão que nos é dado por esmola, é uma conquista e, antes de tudo, interna. É preciso crer-se livre para fazer-se livre. Àqueles que nos chamam porventura de hipócritas, devolvemos o silêncio eloquente de quem sabe o que guarda no coração. E nesse músculo incansável guardamos o sonho de povo livre. Um povo que entende seu papel histórico e escolheu realizá-lo. Mas, como ser livre de um jugo externo, estando escravo de nossas próprias idéias derrotistas? Se um povo não tiver em si a certeza de que merece um lugar ao sol, não terá energia para conquistá-lo. E esse lugar ao sol não deve se restringir à participação em um clube de economias opressoras. Não! O país do patriotismo de Jovita Feitosa e Maria Quitéria de Jesus, da bondade de Anna Nery, da coragem de Anita Garibaldi, Maria Felipa de Oliveira e Sóror Joana Angélica de Jesus merece mais. Inspirado na altivez de Bárbara de Alencar, no brio de Clara Camarão e Nísia Floresta, na luta pela igualdade de Leolinda Daltro e de tantas outras heroínas, esse país pode sonhar mais alto! Temos mitos suficientes para sonhar com um tempo em que seus filhos sejam realmente independentes. Em que possamos ter a coragem de romper o laço opressor da ignorância, do preconceito e dos erros. Laços esses que carregamos por tanto tempo, que já nos parecem tão íntimos, ao ponto de titubearmos em desatá-los. Mas, não há vitória sem guerra. É fundamental que eles subam no alto de seu próprio morro interior. De onde gritem triunfantes que preferem a morte física, do que algemarem os pulsos a uma vida sem virtudes! Como nos diria Cícero, grande orador romano, que a história seja mestra da vida. Que ela nos leve para nosso destino histórico. Livres, leves e fortes! 

 

 (Créditos: manopjk)

 

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