O que “A Morte do Cisne” nos ensina?

September 2, 2019

 

(Créditos: Cisne Russa Anna Pavlova)

 

Uma das coisas que a Arte pode nos ensinar é que tudo tem sua beleza, inclusive a morte. Não de forma superficial, ou como frase de efeito, mas como entendimento de que a morte é uma etapa da Vida, é o fim de um ciclo para que um outro comece, e por isso é belo e natural.  A morte do Cisne (The Dying Swan), ballet de 1905, coreografado por Mikhail Fokine, composição de Camille Saint-Saens, é uma linda metáfora para o fim da nossa existência, para o fim de todos os ciclos que passamos durante a vida. O solo de ballet protagonizado pela grande bailarina Anna Pavlova nos ensina que, a cada instante, devemos morrer, e deixar morrer aquilo que já não tem mais sentido dentro de nós, guardando a devida beleza de termos feito parte do grande espetáculo da Vida.

 

(Créditos: O meu Repertório) 

 

Inspirada por cisnes de um parque público e pelo poema de Lord Tennyson “The Dying Swan”, Anna Pavlova perguntou se Michel Fokine poderia criar um solo de ballet para apresentar em um concerto em 1905, no Mariinsky Imperial Opera. Fokine então sugeriu uma dança para a composição do francês Camille Saint-Saëns, em violoncelo, “Le Cygne”, parte da peça “Le Carnaval des Animaux”. A coreografia era  composta principalmente por movimentos da parte superior do corpo, especialmente os braços, e por um pequeno passo chamado “pas de bourrée suivi”. 

 

Fokine comentou o seguinte sobre o ensaio com Pavlova: "Era quase um improviso. Dancei na frente dela, ela logo atrás de mim. Em seguida, ela dançou e eu caminhava ao lado dela, curvando os braços e corrigindo detalhes de poses. Antes dessa composição, fui acusado de  rejeitar a dança nas pontas dos pés. A Morte do Cisne foi a minha resposta a essas críticas. Esta dança tornou-se o símbolo do Novo Ballet Russo. Foi uma combinação de técnica magistral com expressividade. Foi como uma prova de que a dança pode e deve satisfazer não só o olho, mas por meio do olho deve penetrar a alma."

 

(Créditos: Wikipédia)

 

Não é a toa que o espetáculo causa grande impacto na nossa Alma, além da interpretação sensível de Pavlova e da belíssima coreografia de Fokine, o poema de Tennyson que inspirou a obra, também nos faz sentir como se estivessemos ali contemplando a leveza e a profundidade dos cisnes em meio a natureza.

 

A Morte do Cisne

(Lord Tennyson, 1830)

 

A planície era gramada, selvagem e nua,

Largo, selvagem e aberto ao ar

Que havia se construído em todos os lugares

Um sub-telhado de cinza triste.

Com uma voz interior o rio correu,

Por que flutuava um cisne moribundo

E em alto som lamentou.

Foi no meio do dia.

Sempre o vento penoso continuou,

E levou os juncos enquanto passava.

 

II.

Alguns picos azuis ao longe roseavam,

E branco contra o céu branco e frio

Brilhavam suas coroas de neve.

Um salgueiro sobre o rio chorou,

E sacudiu a onda enquanto o vento suspirava;

Acima, no vento, estava a andorinha

Perseguindo a si mesma em sua vontade selvagem,

E longe dos musgos verdes e imóveis

Os emaranhados de água dormiam,

Filmado com roxo, verde e amarelo.

 

III

O hino da morte do cisne selvagem levou a alma

Daquele lugar de perda com alegria

Escondido em tristeza: primeiro ao ouvido

O gemido era baixo, cheio e claro;

E flutuando sobre o céu,

Prevalecendo em fraqueza, o canto fúnebre roubou

Às vezes longe e às vezes se aproximava;

Mas, em sua terrível voz jubilosa,,

Com uma música estranha e múltipla,

Fluiu adiante em um canto livre e forte;

Como quando um povo poderoso se alegra

Com flautas e com címbalos e harpas de ouro

E o tumulto de sua aclamação é rolado

Através dos portões abertos da cidade distante,

Ao pastor que vigia a estrela da tarde.

E os musgos rastejantes e ervas daninhas pegadiças,

E os galhos de salgueiro encanecidos e úmidos

E o ondulante aumentar do sussurro nos juncos,

E as trombetas desgastadas pelas ondas ecoando na margem,

E as prateadas flores pantanosas que lotam

Os riachos desolados e as piscinas 

Foram inundados com um canto circundante.


 

(Créditos: O Popular)

 

A obra de Camille Saint-Saëns também merece ser apreciada por nós como parte importante deste conjunto harmônico. Pensada inicialmente como uma brincadeira para criticar o cenário musical parisiense da época, Camille compôs em 14 movimentos, para piano e orquestra, “Le Carnaval des Animaux” mas só deixou o “Le Cygne” ser levado a público antes de sua morte, por medo que a peça e seu tom jocoso manchassem sua imagem de compositor sério. Por ironia do destino, “O Carnaval dos Animais”, destacando “O Cisne”, é sua obra mais conhecida. Os animais aqui não são somente animais, mas sim um símbolo para vários aspectos humanos, potencialidades e limitações que compartilhamos com os bichos. Como somos todos parte da mesma Natureza, estamos sujeitos às mesmas Leis.

 

Assim foram desenvolvidos os 14 movimentos:

 

1. Introdução e marcha real do leão. Os dois pianos e as cordas abrem a marcha do soberbo animal, imitando seus rugidos.

2. Galinhas e galos. Clarinetes, pianos, violinos e viola .

3. Hémiones (asnos selvagens do Tibet. Animais muito velozes).Os dois pianos lançam-se em escalas de clima de loucura, que jamais se alcançam.

4. Tartaruga. Tocada em andamento extremamente lento com cordas sobre um acompanhamento do piano.

5. O Elefante. O contrabaixo com ornamentos do piano tocam o tema.

6. Cangurus. Os dois pianos saltitam. Eles hesitam, eles param...

7. Aquarium. Flauta, celesta, os dois pianos e as cordas. As flautas dão um sentido de ondas, os pianos um sentido de nadar, a celesta faz parecer gotas de água.

8. Personagens de orelhas longas. Por poucos compassos dois violinos alternam seus diálogos.

9. O Cuco no fundo do bosque. Com o acompanhamento do piano, a terça do cuco é dita e redita pelo clarinete.

10. Viveiro. Uma flauta com acompanhamento dos pianos e das cordas.

11. Pianistas. Faz referência aos músicos iniciantes. Eles são, segundo Saint-Saëns, verdadeiros animais, e não dos menos barulhentos. Devem imitar o toque de um aluno de piano iniciante, alternado em escalas e terças duplas, com notas desafinadas. As cordas rangem, irritam-se e interrompem o insuportável duo.

12. Fósseis. As antigüidades – uma série de citações que se encadeiam vivamente. 

13. O Cisne. Uma nobre bobagem, segundo o próprio Saint Saëns. O violoncelo toca sobre as harmonia dos pianos. No final ele adormece.

14. Final. Um desfile de toda a bicharada, onde desfilam os principais temas ouvidos durante a obra, inclusive a dos pianistas.

 

Dito isso, é importante percebermos que “A Morte do Cisne” não é somente sobre o cisne e sua vida solitária num parque da cidade, mas sim, como bem apresentado por Pavlova, uma luta contra a morte, uma luta pela existência, uma luta que travamos pelo que vale a pena ser vivido. Por outro lado, a obra também nos ensina a aceitar as Leis da Vida, nos mostra que também precisamos aprender a morrer, a reconhecer o fim dos ciclos e a  interpretá-los com beleza.

 

 

Atualmente, a coreografia inspira muitas versões contemporâneas de Odette, o cisne branco no Lago dos Cisnes de Tchaikovsky, chegando até a nos confundir em quem inspirou quem ou até mesmo pensar que são a mesma obra. É importante percebermos também que, para além de uma grande exibição técnica, a proposta original de Folkine era algo mais profundo. Como diz sua neta Isabelle: “Não é necessário uma demanda técnica enorme, mas sim grande sensibilidade artística porque todo movimento, todo gesto deve demonstrar alguem tentando fugir da morte”. A intenção de Folkine era tocar nossa Alma através da beleza que um cisne expressa, mesmo no momento de sua morte. Na verdade, este cisne pode ser cada um de nós, seguindo os ciclos de vida e morte, e buscando o sentido nisso tudo.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

DIFICULDADE COM AS LEGENDAS?

Caso você não saiba ativar as legendas nos vídeos do youtube, clique aqui para acessar o tutorial.

  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon
  • YouTube Social  Icon
Procurar por Tags
Histórico de publicações
Please reload

Please reload

Siga essa Idéia

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Você também vai gostar
Please reload

© 2017 por "Equipe Feedobem". Orgulhosamente criado pela Feedobem

    Gostou do nosso portal? Nos ajude a elaborar artigos e

conteúdos cada vez melhores para vocês. ;-)