O Egito e suas grandiosas influências

September 2, 2019


 

 (Créditos: TGK Travel)

 

Sempre que se pretende pensar sobre o Egito, vale antes se perguntar: que Egito? Porque tem dois, um Egito dos livros de História Geral, oficialmente aceito, e outro mítico, oculto. As duas visões são perigosas. 

A primeira abordagem é perigosa, pois pode nos prender aos limites do pequeno Egito, sistematicamente aceito pelo método histórico-materialista, deixando de fora a verdadeira e profunda essência daquela cultura. E a segunda pode nos lançar a um oceano de fantasiosas viagens imaginativas, distantes dos limites do que de fato foi o Egito.

 

A verdade é que, não obstante, sobram especulações. Não sabemos com exatidão quase nada sobre o Egito. O que podemos dizer é que todas as culturas subsequentes, olharam para lá e disseram: “Olha! Há algo de  misterioso ali”. Inclusive, até o nome que usamos para designar aquela civilização não é egípcio, é grego: Aigyptos, que quer dizer “o oculto”, “o escondido”.

Temos que puxar o véu com cautela para poder ver o que está oculto, e como se faz isso?

Acho que o melhor método é observar como as grandes mentes da humanidade, na matemática, na filosofia, na religião, bem como personalidades políticas impactantes, como Napoleão Bonaparte, se conectaram àquele lugar.

Aristóteles dizia que: “No Egito tiveram início as ciências matemáticas, pois lá a nação dos sacerdotes gozava de tempo livre”. Há papiros que revelam um conhecimento avançado da matemática, por exemplo, um dos achados demonstra que os egípcios sabiam que 2/29 podem ser expressos assim: 1/24 + 1/58 + 1/174 + 1/232, sabiam ainda que a mesma soma pode também ser expressa assim 1/15 + 1/435 ou 1/16 + 1/232 + 1/464. 

 

Essa nação misteriosa foi a escola que formou o matemático, filósofo, músico e místico Pitágoras, da ilha grega de Samos. Depois de viajar pelo Egito, ele fundou uma escola de buscas profundas sobre a natureza matematicamente pensada de todo o Universo. Na verdade, a escola pitagórica foi mais que uma escola, foi um movimento filosófico profundo com uma proposta de vida moral, de investigação da natureza e conexão consciente com o aspecto transcendente da realidade. Dizem que a palavra “filosofia”, como amor à sabedoria, foi cunhada por Pitágoras. As investigações desse matemático, para além dos números, alcança com muita coerência e verdade aspectos relativos à vida após a morte, à imortalidade da alma e a influências sutis da natureza na psique humana, como acontece com as proporções aritméticas dos intervalos das notas musicais.

 

 

Pitágoras (Créditos: Toda Matéria)

 

Depois de Pitágoras, vê-se na história da filosofia uma verdadeira cadeia de grandes mestres e discípulos que vai retransmitindo muitos conceitos, símbolos e perspectivas egípcias da realidade. Um dos filósofos mais expressivos e impactantes de todos os tempos, Platão, inexoravelmente, bebeu naquela fonte. Quando muito jovem, decepcionado com a democracia ateniense, viajou por aquelas terras como um exilado e se iniciou em escolas de mistérios. Depois dessas iniciações, começou a falar de dois mundos, o mundo das coisas palpáveis e o mundo das ideias. E quanto mais avançam as descobertas arqueológicas sobre a História daquela cultura mais se descobrem elos seguros entre o monumentalismo egípcio e o pensamento platônico. 

 

 

                                               Platão (Créditos: Wikipédia) 

 

Para Platão, o mundo ao alcance dos nossos sentidos é frágil, pueril, transitório e está longe de encerrar a realidade última. “O Mito da Caverna”, presente em sua famosa obra, “A República”, nada mais é que a expressão grega para a Lei Mental de Hermes Trismegisto, o que os nossos olhos vêem, nossos ouvidos escutam e nossas mãos tocam não passam de sombras refletidas de uma realidade muito maior, perfeita, transcendente e intransitória. Isso se harmoniza com nossas intuições mais profundas. Todos os nossos inconformismos diante da morte, a nossa sede de querer sempre mais, nossa busca pela perfeição e pelo maior, nossas impressões culturais e históricas sobre o Divino e sobre o Sagrado, encontram nessas leis a coerência que precisamos para viver, encontram o sentido que buscamos na existência.

É de se surpreender de igual modo a semelhança indiscutível entre a mensagem de Jesus e a mensagem sutilmente reverberante da cultura egípcia para o mundo. Muitos aspectos da narrativa de Jesus nos evangelhos coincidem com aspectos da narrativa do mito de Hórus. Ambas narrativas enfocam a questão da ressurreição e do juízo pós-morte. É certo que há muita polêmica em torno dos detalhes da comparação, mas o que é indiscutível é que uma narrativa não está deslocada da outra. Veja bem, essa semelhança não deprecia nenhuma das duas formas religiosas, muito pelo contrário, o que fica evidente é que a linguagem do sagrado é a mesma, são diferentes símbolos que apontam para o mesmo conteúdo. Jesus e Hórus são apenas vestimentas culturais diferentes para o mesmo conteúdo oculto. Ambos mostram ao mundo a necessidade de amar uns aos outros, o desapego da materialidade e a intuição profunda de eternidade.

Com a queda do mundo clássico no século V, a mensagem simbólica do Egito vai se tornando cada vez mais distante, como um sussurro silencioso abafado por uma multidão de vozes grosseiras, ignorantes e fantasiosas. Durante a Idade Média, já não se sabia mais nada sobre o Egito, a biblioteca de Alexandria foi incendiada três vezes, muitos monumentos foram estupidamente destruídos e  muitos símbolos se perderam para sempre. 

 

 Biblioteca de Alexandria (Créditos: Estadão)

 

Séculos depois, com as Cruzadas, a mentalidade ocidental começou lentamente a redescobrir a força da simbologia egípcia, em uma espécie de “correr atrás do prejuízo”. Desde então, há uma busca latente na humanidade pela ressonância simbólica daquela civilização. 

O General Napoleão Bonaparte foi fortemente impactado pelas imagens do Egito que lhes foram mostradas através de esboços em papiros, pelo artista francês Dominique Vivant Denon. Não temos dúvidas de que a única explicação para a conquista do Egito por Napoleão em 1798 foi a sua ambição por conhecer, dominar e trazer para si o poder expresso nas artes e no monumentalismo egípcio. Isso se torna mais claro pelo fato de ter enviado Denon, com uma equipe de 167 cientistas e artistas, para pesquisar a cultura e a história do lugar, enquanto liderava um exército de 35 mil soldados na conquista do Egito. A ordem de Napoleão a Denon era medir, desenhar com riqueza de detalhes cada obra de arte, cada monumento arquitetônico que não pudesse ser transportado, a fim de ser reproduzido posteriormente. Por consequência dessa ação, condenadas por uns e aplaudidas por outros, o fato é que hoje existe uma enciclopédia chamada Description de l'Égypte, contendo uma descrição detalhada do antigo e moderno Egito, que nos aproximam, pelo menos, em uma curta medida, do que foi aquele momento áureo da História. Napoleão via no Egito a impressão física de um impulso da História direcionado para os céus, é daí que vem sua célebre colocação diante das pirâmides: “Do alto dessas pirâmides, quarenta séculos nos contemplam”.

 

 

Napoleão Bonaparte (Créditos: Toda Matéria) 

 

Sobre o Egito, não sabemos quase nada, resta-nos o humilde gesto de calar e sentir o aroma e o fluxo que os poucos e imprecisos dados históricos nos sopram daquela civilização. Que esse sentir nos inspire a buscar uma proximidade das ideias elevadas, a partir da linguagem simbólica do sagrado, tentando integrar arte, ciência, política e religião numa experiência verdadeiramente humana… Assim como fez aquela cultura.


 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

DIFICULDADE COM AS LEGENDAS?

Caso você não saiba ativar as legendas nos vídeos do youtube, clique aqui para acessar o tutorial.

  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon
  • YouTube Social  Icon
Procurar por Tags
Histórico de publicações
Please reload

Please reload

Siga essa Idéia

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Você também vai gostar
Please reload

© 2017 por "Equipe Feedobem". Orgulhosamente criado pela Feedobem

    Gostou do nosso portal? Nos ajude a elaborar artigos e

conteúdos cada vez melhores para vocês. ;-)