Joaquim Nabuco e o Amor pela Humanidade

August 28, 2019

O ser humano tem em si uma natural atração pela eternidade. Não é à toa que pintamos quadros, escrevemos livros, ou ansiamos por inscrever nossos nomes em obras e grandes conquistas. Mas, há um tipo de ser humano que consegue alcançar um pouco da eternidade pela sua própria vida, pela trajetória de suas escolhas, pelo devotamento em suas ações, pela clareza de suas ideias e pela fidelidade a si mesmo. Joaquim Nabuco definitivamente é um desses! Esse recifense poderia ter ficado para a história por ser fundador da Academia Brasileira de Letras, ou por ter sido o primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos da América, ou por ter escrito uma das obras mais importantes sobre o contexto político do segundo reinado (Um estadista do império, contendo a biografia de seu pai), ou por ter defendido de forma magistral, produzindo catorze volumes argumentativos, a soberania brasileira na questão do Pirara (disputa de terras com a Inglaterra, em território da atual República Cooperativa da Guiana). Mas, não são esses os feitos que levaram este pernambucano a roçar a imortalidade e a se tornar nome de ruas, empresas, edifícios, fundações e praças... 
 
É precisamente o seu exemplo de humanismo, sua crença na igualdade entre os homens, sua consciência moral e fidelidade a ela, sua coragem, sua inteligência e cultura, seu patriotismo e a coerência de seus atos, o que nos obriga a escrever sobre ele, mais de cem anos após sua morte. Nabuco cresceu nas terras do Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho, terra de canaviais, onde ainda hoje repousa a pequena capela de São Mateus. Estas terras ao mesmo tempo que eram lavadas pelo Rio Ipojuca, eram enlameadas. Não pelo massapê do mangue que delas se acercavam, mas pelo jugo das pessoas escravizadas que nela deixavam seu suor, seus dias, suas dores e suas vidas. 
 
“O traço da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber…” (Joaquim Nabuco, em Minha Formação). 
 
Este traço para Nabuco se daria em tenra idade, ao encontrar-se pela primeira vez com a “instituição com a qual vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava”. Ele mesmo nos descreve, como um jovem homem escravizado, suplicaria aos prantos para ser por ele comprado, posto que seu atual dono era muito cruel. Neste torrão, o traço da totalmente censurável escravidão, pareceu aos olhos de Joaquim, menos grave que nas “fazendas do sul, onde o escravo, desconhecido do proprietário, era instrumento de colheita” . E, morta a madrinha com quem morava, se mudaria ao Rio para viver com o pai, senador do Império, sob copioso choro dos homens que lhe serviam até aqueles seus oito anos. Estas experiências estão no fundamento sobre o qual o menino Quinzinho, se tornaria o homem Joaquim. Elas sedimentariam o que seria o centro de sua vida: a luta pela abolição! 

 

 

(Créditos: Wikipédia)
 
Nabuco era um homem com um centro. E todas as realizações de sua vida, orbitavam-no. Assim sendo, pôde ele ocupar muitas funções e ser sempre o mesmo. Essa é uma das maiores necessidades de nossa sociedade. É fundamental que cada um de nós tomemos consciência do que está no centro de nossas vidas. Por que fazemos o que fazemos? Pelo que vivemos? Num mundo egoísta como o nosso, não será estranho perceber que centramos nossa vida em nossos próprios desejos. Estamos ocupados demais vivendo todas as emoções possíveis, buscando o máximo de dinheiro possível, querendo uma vida sem compromissos. Como se fosse essa a liberdade possível, num mundo de grilhões materiais e psicológicos. Mas, sem perceber somos servos que se apaixonaram pelo tirano. E por pular de desejo a desejo, vivemos nossa vida sem um norte, sem um farol. Apenas repetimos o que dita a moda do momento, ou o que a indústria da manipulação emocional nos fez querer comprar. 
 
E achamos que agimos por nossa própria consciência. Até mesmo quando protestamos contra o establishment, os gritos que ecoam de nossa voz são o resultado de uma manipulação à esquerda, ou à direita por grupos politiqueiros. Mas, não foi assim com nosso herói. Antes de qualquer orientação política, econômica, ou religiosa era ele um humanista e um idealista. Sonhava com uma nação livre da escravidão. Sonhava com uma América unida. Talvez, esteja exatamente na escolha do que reconheceria por seu centro, o segredo da sua coragem, força e inteligência. Não escolheu honrar a memória de seu pai famoso. Não escolheu encontrar o amor de sua vida. Não escolheu construir fama de onde pudesse obter favores do império e dinheiro da plebe. Escolheu antes a aventura mais difícil e arriscada para alguém com suas origens oligárquicas. Escolheu o esforço crônico em que derramaria os anos de sua juventude. Escolheu um Ideal, com “I” maiúsculo. Algo tão grande que só os grandes sonhariam buscar. Por certo, é da falta desse tipo de visão que padecemos quando queremos aliar liberdade à felicidade. Chamamos de liberdade, a possibilidade de direcionar a nau de nossa vida para o porto que escolhermos, em vez de escolhermos o sol que brilha no horizonte. Ao seguir uma estrela, aquela que levaria um povo a reencontrar o caminho, a acordar de um pesadelo, ele ordenou toda sua vida. Se estava fora do país, tratava de mobilizar a opinião internacional, ao ponto de conseguir uma audiência com o Papa e rogar palavras de apoio à causa. Se estava no Brasil, dedicava-se a fazer brilhar a luz desse Ideal humano no coração de outros patriotas.

Ele se formou em Direito nas mesmas faculdades (São Paulo e Recife) de Castro Alves, Tobias Barreto, José Mariano e tantos outros. É célebre a defesa que fez do negro escravizado Tomás, acusado de matar seu senhor e um guarda que o tentou deter. “Na verdade não cometeu um crime: removeu um obstáculo”, disse na argumentação que salvou a vida do homem. Mas, não era por um homem que ele lutava. Mas por toda a nação, quiçá por todos os povos do planeta. Um ser dotado de tamanha firmeza de caráter e sensibilidade de alma que era capaz da estética mais refinada e das palavras mais ferinas contra todos os que se intrometiam quando não deviam, ou negligenciavam seu papel pela restituição do grau de humanidade perdido na nação tupiniquim.  Sim, porque não será plena a nação, ou toda a civilização humana, enquanto não superar a desarmonia entre os homens. E a cada grau conquistado de generosidade, justiça e fraternidade por qualquer povo, é também uma conquista de toda a Humanidade. Por cumprir a função humana nesta aventura da manifestação: revelar em si e na relação com todos os seres, o mesmo cosmo que vemos naturalmente revelado na natureza. 
 
Do centro de sua vida, definiu a estratégia de guerra. Assim como o herói grego Teseu, ele lutaria contra o monstro no seu próprio labirinto. No emaranhado de leis criadas ora para justificar, ora para atenuar sem resolver a ignomínia, ele levantaria sua espada tão alto que seu pai certamente o reconheceria. E durante anos, na estrutura política do Império, na Câmara dos Deputados, foi a voz mais ouvida e uma das que mais gritou. E se era o Partido Conservador que resistia, contra ele atirava-se. Se era o seu amigo imperador que devia ser exortado, não se omitia. Paradoxalmente, teve ele que aliar-se aos dois para realizar seu sonho. Ou parte dele. Pois, como escrevera sobre a escravidão: 
 
(...) não significa somente a relação do escravo para com o senhor; significa muito mais: a soma do poderio, influência, capital, e clientela dos senhores todos; o feudalismo estabelecido no interior; a dependência em que o comércio, a religião, a pobreza, a indústria, o Parlamento, a Coroa, o Estado enfim, se acham perante o poder agregado da minoria aristocrática, em cujas senzalas centenas de milhares de entes humanos vivem embrutecidos e moralmente mutilados pelo próprio regímen a que estão sujeitos; e por último, o espírito, o princípio vital que anima a instituição toda, sobretudo no momento em que ela entra a recear pela posse imemorial em que se acha investida, espírito que há sido em toda a história dos países escravos a causa do seu atraso e da sua ruína.” 
Em treze de maio de 1888, Joaquim Nabuco estaria ao lado de seus amigos, Machado de Assis, André Rebouças, Princesa Isabel e tantos outros para o desfecho dessa etapa da aventura redentora. Uma aventura com tantos outros nomes igualmente admiráveis: Luiz Gama, Dragão do Mar, Adelina, Maria Tomásia, Maria Firmina dos Reis, José do Patrocínio, Pio, Agostinho, Cornélio, José, Teófilo, José Arruda e Librório. 

 

(Créditos: Centro de Memória Sindical - CMS)
 
Mas, como a história nos ensina muito bem: nenhuma boa ação sai impune. Com a lei áurea assinada pela Princesa Isabel, determinando o fim desse tormento escravagista, morreria também a monarquia, a quem Nabuco defendia como caminho para a federalização da nação. Os grandes senhores de escravos, se sentindo prejudicados por perderem “mercadoria”, articulam com o partido republicano e com alguns militares o golpe militar de 15 de Novembro de 1889, enviando a família real para o exílio.  Na República, Nabuco ainda se entregaria a um último serviço a seu país, enquanto embaixador nas terras do Tio Sam. 
 
Não falaremos aqui de sua morte. Um ser dessa estatura não morre. Quem persegue um ideal tão distante, acaba aprendendo a voar. E voa tão alto que desenvolve luz própria. Seu brilho tem um lúmen tão intenso porque vem do mais profundo centro de seu universo. E como uma estrela distante, sua luz continua viajando enquanto houver olhos que a possam captar, mesmo que ele tenha mergulhado no mistério oculto de uma supernova! 

 

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