Homenagem a Johann Sebastian Bach

September 22, 2017

 

 

Originalmente publicado em Filosofia Cotidiana Nova Acrópole

Flavia Fernandes

 

Há alguns dias, vi um vídeo no qual dois elefantes dançavam ao som de Johann Sebastian Bach. A cena era, no mínimo, diferente do ambiente das salas de concerto: uma violinista tocando trechos de uma obra para dois violinos (BWV 1043) em frente à cerca que a separava dos executantes do balé de trombas e abanadas de orelhas, enquanto a plateia sorria desconcertada.

 

O curioso é que, segundo a tradição hindu, o elefante é símbolo da Sabedoria. As características deste animal, cujas orelhas são bem maiores que a boca e tem olhos muito miúdos, correspondem às de um sábio: mais ouve do que fala,
e seus olhos têm uma visão muito profunda da vida, que o torna capaz de respeitar o trajeto de pequenas formigas, ao mesmo tempo em que parecem voltar-se para uma visão interior, enxergando mais além das aparências. E que isto não seja confundido com uma postura passiva, pois este ser – tanto o elefante, quanto o sábio - é capaz de passar por cima de qualquer obstáculo para ajudar a quem precisa.


Em algum grau, essas características também podem ser reconhecidas em um gênio, aquele que logra excelência em um ramo do conhecimento. Certamente, as veremos em Johann Sebastian Bach. 

 

Contam os relatos de Ana Madalena Bach, segunda esposa de Johann Sebastian, que, certo dia, deparou-se com seu esposo em um silencioso momento de trabalho. Ele estava com os olhos cheios de uma profunda dor, quase fechados, a imaginar o solo de viola “O Gólgota”, do Oratório “A Paixão Segundo São Mateus”. Ana Madalena não o interrompeu, saiu de maneira imperceptível e pôs-se a chorar de comoção. Ela desejava, um dia, merecer ouvir o que aqueles ouvidos ouviam e ver o que aqueles olhos viam. Não era para muitos. A “Paixão Segundo São Mateus” não foi bem recebida por seus contemporâneos.

 

Bach costumava dizer que sua música era sempre fruto de uma profunda vivência interior, transcrita em uma folha de papel com muito trabalho e domínio da técnica. As críticas de seus contemporâneos não o atingiam. Explicava, de forma lógica, que a verdadeira música é bela em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois é a expressão de ideias belas e perfeitas. Se uma pessoa não tem capacidade para reconhecê-la, tal como um bom médico é capaz de identificar a doença e os caminhos para a cura de um paciente, não é problema da música... e deixava as formigas passarem.

 

Devotado ao trabalho e ao conhecimento, Bach delineou as bases do sistema tonal, explorando cada uma das 24 tonalidades na conhecida obra “O Cravo Bem Temperado”, e mudou a forma do mundo ocidental compor e ouvir música. Curiosamente, viveu seus 65 anos entre pequenas cortes alemãs. Nasceu em Eisenach, passou por outras pequenas localidades até chegar em Koethen, onde desenvolveu grande parte de sua música de câmara, e morreu em Leipzig. 

 

Ana Madalena não registra em suas memórias que a mudança de sua família de Weimar para Koethen tenha sido turbulenta: com a morte de Johan Samuel Drese, então diretor musical de Weimar, o esperado era que Bach o sucedesse, o que não ocorreu. O filho de Drese, um notório incompetente, passou a ocupar o cargo para fazer os gostos do duque Wilhelm. Sabendo disso, o duque de Koethen convidou Bach para sua corte, onde teria melhor salário e maior liberdade para compor. O convite foi aceito imediatamente, mas não o pedido de demissão. O duque Wilhelm estava resguardado por penalidades contratuais aplicáveis a casos de desobediência do súdito diante de seu soberano. Sem retroceder, Bach foi preso mas, um mês depois, foi solto, em nome do bom relacionamento entre as cortes.

 

De fato, nenhum tipo de prisão foi suficiente para impedir que o gênio se expressasse; nenhuma limitação geográfica diminuiu a universalidade de sua arte (nem o tempo dispendido com suas duas esposas e treze filhos, dos quais alguns também se tornaram músicos renomados, dando continuidade à tradição musical da família Bach). 

 

Em seu último instante de vida, já completamente cego pelo excesso de trabalho, pediu a seu filho Christoph que buscasse uma folha de papel e começou a ditar a última música que faria neste mundo. Ele estava de olhos abertos, tendo a sua última visão: o sol e uma rosa vermelha que Ana Madalena lhe oferecia. Foi quando disse: “Existem coisas mais belas no lugar para onde vou, Madalena; mais belas cores, música como nem tu nem eu jamais ouvimos, que só em sonhos pudemos suspeitar...”. Morreu serenamente enquanto todos cantavam à sua volta, deixando a impressão de que sua busca pela perfeição não havia terminado.

 

Hoje, fechamos nossos olhos e abrimos nossos ouvidos, buscando também acessar algo dessa ideia tão elevada que um verdadeiro artista traz ao mundo, cujo teor pode ser traduzido como união, beleza e harmonia. Se o pesado coração de um elefante é capaz de vibrar com ela, que o nosso coração humano desperte e baile, talvez numa humilde homenagem ao gênio de Bach, que também vibrará conosco, naquela pátria da Eterna harmonia que já pressentia, em vida, e que fez por onde merecer.

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